Excerto sobre o Tratado da Música de Santo Agostinho de Hipona.
Santo Agostinho, Piero della Francesca. c. 1454 d.C. - 1469 d.C Antecessor de Descartes e de Malebranche, que cavaram um abismo entre o corpo e a alma, Agostinho, guiado pelo senso cristão, rejeita a possibilidade de o corpo modificar a alma. O corpo não produz, na alma, dor ou prazer. Nada disso: atenta às impressões que o corpo recebe do exterior ou das modificações sofridas em seus órgãos, a alma toma consciência dos movimentos corporais, e, associando-se ou opondo-se a eles, a eles se conformando ou resistindo, essa mesma alma sente dor ou prazer. A dor é uma função de sofrimento dos órgãos percebida pela alma, o prazer, uma operação agradável de que ela toma consciência. Essa teoria é tanto mais original quanto vemos que a alma é tida em geral como coisa puramente passiva no fenômeno da sensação: Agostinho vê nessa passividade um entre outros modos de atividade da alma, uma reação contra os impulsos vindos do exterior, e a alma segue livre para associar-se a eles ou não....