A Revolução Liberal: o fim do Medievo

 

Releitura pessoal sobre a obra: Os Sete Pecados Capitais e as Quatro Últimas Coisas, por Hieronymus Bosch. No lugar de Deus ao centro, como no original, temos o homem vitruviano (antropocêntrico): "medida de todas as coisas". 


I. A organicidade da sociedade medieval. 

As Corporações de Ofício ou Guildas medievais (na França: Confréries; na Inglaterra: Guilds; na Alemanha: Zünfle); foram na civilização medieval a base de toda produção econômica e social das comunidades urbanas e feudais; tais Corporações eram formadas por inúmeros grupos de fraternidades laborais, que transmitiam seus conhecimentos operativos (Ars Serviles) de geração em geração (conforme os graus oficiais: do Aprendiz, do Companheiro e do Mestre). 

Esses corpos intermediários da sociedade feudal eram sustentados pelos laços familiares de confiança, mantendo-se assim toda organicidade medieval própria da primazia da Lei Natural e do Direito Consuetudinário, vigorante até o advento do Liberalismo contratualista positivado; e ainda, toda essa organicidade só era possível, para além da estrutura interna, devido a aliança entre tais Guildas com a Igreja Católica: enquanto as Guildas regiam a vida comum da manufatura, na administração material subsistente em toda sociedade (pequenos mistérios), a Igreja regia a vida espiritual de todos, orientando as almas na retidão e no bem comum que se mantinha na relação da oração com o trabalho e o tempo (grandes mistérios). 

A Modernidade liberal modificou tudo isso, primeiro com a paulatina supressão das Corporações, reduzindo o caráter intermediário das fratres ao regalismo dos códigos reais, e após a derradeira destruição das autonomias feudais com a Revolução Industrial (séc. XVIII), nada mais que um prolongamento técnico-prático da Revolução Liberal iniciada desde o século XVI ao XVII, mais exatamente na Revolução Inglesa.

 

II. A sociedade atômica e o Leviatã. 

“Da revolução dos astros a revolução dos homens”: eis a máxima do século XVI, o tempo em que forças ocultas na História triunfaram em sentido mais amplo e indiscernível; a desconstrução de toda organicidade medieval, dando lugar as invenções de uma sociedade baseada na visão mecanicista do homem e do mundo. 

Homo homini lupus: “o homem é o lobo do próprio homem”. Originalmente, uma máxima do poeta latino Plauto, resinificado pelo teórico inglês Thomas Hobbes, na concepção moderna de Lei Natural, sendo a natureza humana propícia a transgressão da Lei, o contratualismo civil vem ressarcir tal dificuldade do equilíbrio da vida em comunidade, dando poder a um grupo seleto de escolhidos para representar e administrar a coisa pública (res publica), daí o nascimento do Estado Laico, o Leviatã moderno, que impõe pela força de lei a ordem, submetendo as liberdades aos limites das Leis; quem tratará mais adiante desse problema da coesão interna das leis conforme as liberdades dos cidadãos será o Barão de Montesquieu (Do Espírito das Leis). 

No entanto, em contrapartida a teoria do Estado absoluto, que é alimentado pelo laicismo, temos a ideologia liberal, que corrompendo a ideia de liberdade, desvirtua a concepção de igualdade, nivelando todos os homens a um nível abstrato do sujeito político; em consequência temos a dissolução da organicidade medieval: na realização perfeita da hierarquia platônica, nas três ordens medievais: laboratores (servos), bellatores (nobres) e oratores (clérigos). 

Tal fragmentação moderna, levou a sociedade ocidental ao nível atômico (por analogia), reduzindo os homens a átomos dispersos no espaço social, unicamente reunidos sob a égide do contrato social, que por sua vez dá ao Estado força imperativa, na condição de reunir os indivíduos (in-dividuus – equivalente latino para o termo grego: a-tomos – “não-divisível”); logo, a revolução liberal faz do indivíduo autossuficiente, enquanto agente político e econômico, unicamente ligado a outro indivíduo por contratos abstratos garantidos pelo Estado; a religião não serve mais de ligadura, pois a consciência de cada um é sua religião; paremos aqui, senão tal raciocínio nos levara muito longe.

 

 III. A liberdade humana segundo São Tomás. 

“É próprio do governante conduzir ao fim os governados por ele. [Ora], o fim do demônio é afastar de Deus a criatura racional; por isso ele tentou desde o começo apartar o homem da obediência ao preceito divino (Gn. III). Mas tal separação de Deus tem razão de fim enquanto se apetece sob o pretexto de liberdade, de acordo com as palavras de Jeremias (II, 20): ‘Há muito tempo rompeste o jugo e quebraste os laços. Disseste, então: Não servirei (non serviam)’. Por conseguinte, quando ao pecar alguns são arrastados a esse fim, caem sob o domínio e governo do diabo (sub Diaboli regimine et governatione cadunt)”1. 

Por definição, o homem é livre para querer o Sumo-Bem, feito a imagem e semelhança de Deus, para querê-LO; ao dar as costas para seu fim último, o Homem toma partido da rebelião luciferina, de ser livre para tudo quanto lhe apetece: o utilitarismo – esse filho do espírito liberal – reduz o Homem a animalidade material, a vontade corrompida pela eleição da liberdade como princípio em si, e a felicidade terrena a concretização dessa liberdade abstrata. Por fim, para se estabelecer a plena liberdade o liberal busca o paraíso terreno, sendo que uma vez perdido, não torna a reconquistar, não do mesmo jeito. 


IV. “O mundo de cabeça para baixo”. 

Digamos em primeiro lugar, que a Revolução Liberal teve sua grande vitória política na Revolução Inglesa, quando a experiência da fragmentação social alcançou seu primeiro salto revolucionário. Tal experiência revolucionária – a contragosto dos declarados liberais conservadores – foi uma ruptura com o passado medieval, a Inglaterra no século XVII foi palco de um dos capítulos mais controversos e pouco discutidos da História. 

Não por acaso, foi na Inglaterra que se desenvolveu primeiro a famosa bipolaridade da política representativa moderna, na personificação dos partidos: Tory (conservadores) e Whig (liberais); mais tarde teremos, na França (Girondinos e Jacobinos); nos Estados Unidos (Republicanos e Democratas); na União Soviética (Mencheviques e Bolcheviques), etc. 

Em síntese, uma revolução leva a outra, e o que foi revolucionário ontem, será conservador amanhã, e assim a Modernidade galopa de revolução em revolução, narrando os acontecimentos a seu bel-prazer; na verdade, os revolucionários de ontem serão os conservadores de amanhã, a esquerda de ontem será a direita de amanhã, e as mudanças antes rejeitadas pelo povo, passarão passivamente como direitos legais garantidos pelo sufrágio universal. 

Christopher Hill, especialista em Revolução Inglesa, assertivamente notou a correlação religiosa intrínseca às revoluções modernas:  

“O protestantismo, conforme afirmou um observador arguto, conservou o pecado medieval sem o seguro que a Idade Média tinha contra ele: a confissão e a absolvição. Os homens emanciparam-se dos padres, porém não dos terrores do pecado, ou do padre interiorizado em suas consciências”. 2 

Ou seja, querendo ou não o Protestantismo, triunfante politicamente na Inglaterra, levou ao Liberalismo, retirando o que era público para o privado, a religião fora “emancipada” da sociedade civil, para se isolar na comunidade dos eleitos, provocando a dissolução da ordem social e por efeito, a criação do Estado Laico, com poderes dignos de um César redivivo. 

A revolução protestante, habitada nos corações dos eleitos da “cidade de Deus”, levou a plena realização da revolução liberal nas mentes dos cidadãos da “cidade dos homens”. 

Hill torna a ressaltar essa intima ligação político-religiosa, quando detecta esse deslocamento do coração do eleito para com sua cosmovisão de mundo, cita Thomas Hooker, líder puritano da Anglo-américa: 

"A verdadeira contrição, esta que sentimos quando o coração se parte, introduz uma estranha e súbita alteração no mundo, modifica o preço e o valor das coisas e pessoas mais do que se pode imaginar, vira o mundo de cabeça para baixo, faz as coisas aparecerem tais como são". 

 "Estes julgam não pela aparência externa, como procedem os homens que têm a mente corrupta, porém por sua experiência, que encontraram e sentiram em seus próprios corações." 

A ação ideológica revolucionária – fazer no mundo a minha ideia de mundo – teve seu nascedouro exatamente nesse deslocamento da consciência da fé da consciência da mente; e infelizmente, no final do Medievo essa cisão foi plantada pela escola nominalista com a dicotomia: Fé versus Razão. 


V. O trono perpétuo. 

A revolução inglesa foi a revolução liberal coroada; sendo que no restante da Europa se mantinha, mesmo com dificuldades, a organicidade social medieval, haja vista o Absolutismo e o Mercantilismo; como em todo organismo, quando uma parte superior se corrompe, a inferior tende a se perder; nos referimos a Monarquia Inglesa e seu “milagroso” estado de longevidade em relação a outras monarquias europeias, não só longevidade cronológica, como também de ampliação de seus poderes e influencia no mundo ao longo dos séculos. 

 Essa longevidade, que levou o trono inglês a se perpetuar por gerações ampliando sua concentração de poder se deve ao curioso experimento da Revolução de 1640-1688, onde o monarca manteria a sua soberania enquanto chefe de Estado, mas o governo da nação deveria ser mantido pelo Parlamento de duas câmaras (Lordes e comuns); mas isso é a parte superficial da revolução; na Inglaterra houve, em primeiro lugar, a união do trono com o altar, não mais a moda medieval, subordinando o poder temporal ao espiritual, mas ao contrário, submetendo o poder espiritual ao temporal: o Arcebispo de Canterbury se tornou o capelão do monarca inglês, uma espécie de cesaropapismo inglês foi implantado pelo Ato de Supremacia (1534) de Henrique VIII, fortalecido pelo Ato de Supremacia (1559) de Elizabeth I; no entanto, com a subida da Casa Stuart (católica) a grande controvérsia retornou, pois Jaime I e Carlos I buscaram moderar tais Atos, na garantia de favorecer os católicos.

A tragédia dos Stuart’s, de Maria I a Carlos II foi sua herança católica, marca indelével de um medievalismo, e isso era tudo que a nobreza anglicana e a burguesia puritana mais odiava; o sucesso, em contrapartida da Monarquia inglesa em si, foi a adequação de seus títulos e poderes conforme se desenvolveu a revolução puritana, que definiu o Parlamento e a unidade nacional sob o trono, não o altar; o fim trágico de Carlos I foi a liquidação da última pedra de empecilho para o triunfo do Liberalismo na Inglaterra, e deste ao mundo. 

A cena da decapitação do rei, sendo festejada pelo puritano Cromwell como vitória dos eleitos de Deus, é a síntese da nova Inglaterra, e do espírito liberal, a queda da Monarquia parecia ter se dado ali, mas graças a adaptação da Casa de Orange ao anglicanismo e o parlamentarismo (as duas colunas do Reino Unido), garantiu a longevidade da coroa britânica; em suma: eles souberam sujar suas mãos conforme as vantagens de cada tempo. 

Christopher Hill vislumbra tal “transcendência política”, no tocante a aliança da coroa com o altar – poder temporal e espiritual – seja o primeiro submisso ao segundo ou o contrário, é necessária essa “interdependência”: 

“Assim, a luta pelo controle da Igreja era de importância fundamental; quem quer que controlasse a sua doutrina e organização estava em posição de definir a natureza da sociedade. Jaime I fazia uma análise política perspicaz quando dizia: «Sem Bispo, não há Rei». Apenas três anos depois da abolição do episcopado, Carlos I morria no cadafalso”. 


VI. O escravo livre. 

O Lúcifer de John Milton (1608-1674) declarou em sua queda: 

“It is better to reign in Hell than to serve in Heaven”. 

“Mais vale reinar no inferno do que servir no céu”.4 

Tal frase guarda em segredo toda falsidade do Liberalismo: ser livre no mundo é ser senhor de si mesmo, o orgulho de ordenar sua vontade conforme seus livres interesses; a servidão é vista como sinal de condenação a uma submissão tirânica; diferentemente do que o próprio Cristo anunciou: “o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir”. 

O ponto de virada é a inversão demoníaca da revolução liberal, pondo os limites da lei natural não mais subordinada a lei divina, proclamada pela Igreja enquanto instituição, não! A lei natural é delimitada conforme a consciência humana do que é ou não moral, o giro antropocêntrico de toda modernidade. 

A revolução liberal provocou no Ocidente uma nova concepção do homem no mundo, voltado para ao materialismo, a consciência política e a religião civil reduzida às consciências; logo, toda sorte de arbítrios foram delegados, pois o homem liberal, pode apenas ser livre conforme as leis do Estado, que assegura a liberdade civil. 

No final das contas, o homem liberal escolheu rejeitar a obediência à Igreja, em favor da obediência ao Estado, escolheu servir ao diabo, enquanto achava estar reinando a si mesmo. 



Bibliografia: 

Alain Peyrefitte. A sociedade da confiança. 

Étienne de La Boétie. Discurso sobre a Servidão Voluntária. 

René Guenón. Estudos sobre a Franco-maçonaria e o Companheirismo. 

Hugh Trevor-Roper. A Crise do Século XVII. Religião, a Reforma e Mudança Social. 

São Tomás de Aquino. SUMA TEOLÓGICA, III. 

Christopher Hill. A revolução inglesa de 1640. 

_______________. O eleito de Deus. 

_______________. O mundo de ponta cabeça: ideias radicais durante a revolução inglesa de 1640. 

John Locke. Ensaio acerca do Entendimento Humano. 

___________. Carta sobre a Tolerância. 

John Milton. Paraíso Perdido. 

São Thomas More. Utopia. 

Thomas Hobbes. O Leviatã. 

David Hume. História da Inglaterra. 

G. K. Chesterton. O que há de errado com o mundo? 

________________. Um Esboço de Sanidade. 

Pe. Félix Sardà y Salvany. Liberalismo é pecado. 

Vianna Moog. Bandeirantes e pioneiros: paralelo entre duas culturas. 

Montesquieu. Do Espírito das Leis. 

Sidney Silveira. Cosmogonia da Desordem. 

 ____________. A alma do Liberalismo. Disponível em: http://contraimpugnantes.blogspot.com/2013/01/a-alma-do-liberalismo.html


Notas:

1 (SUMA TEOLÓGICA, III, Q. 8, a. 7, resp. grifo nosso).

2 Observação primeiro feita por Karl Marx em seus Selected Essays.

3 Sem falar da querela interna das lojas maçônicas inglesas, herdeiras dos mistérios das Guildas, que optaram a rejeitar o catolicismo da maçonaria escocesa, adotando o protestantismo anglicano, colocando-se em oposição a Casa Stuart, retiraram seu apoio a essa, dando favorecimento a Casa Orange protestante. Sobre a protestantização da maçonaria inglesa ver: GUÉNON, René. A propósito dos sinais corporativos e de seu sentido original. In: Estudos sobre a Franco-maçonaria e o Companheirismo.

4 Em uma outra versão temos: 

“A mente é o centro de si mesma e em si 

Do inferno faz um céu, do céu inferno... 

Melhor ser rei no inferno que no céu 

Servir”. Trad. Daniel Jonas.

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