O sacerdote do diabo e o sacerdote de Cristo
Na
História da Igreja, descobrimos misérias e glórias de uma história marcada pelo
sinal da natureza humana e pela ação da providência divina; em especial, quanto
a instituição divina do sacerdócio, - sob as ordens sacramentais, um homem é
elevado a transfigurar sua identidade - “in
persona Christi”: ser instrumento da Graça; no entanto, essa mesma
instituição pode gerar uma outra face terrível, quando este mesmo homem, uma
vez sagrado, rejeita, repele e submete aos apetites da carne seu espírito. Na
história da Igreja, na tão famigerada Modernidade, destacamos dois sacerdotes,
que evidenciam facilmente tal contraste, latente na condição do sacerdócio.
O
primeiro é o Pe. Jean Meslier, nascido em Mazerny, a 15 de junho de 1664,
falecido em Étrépigny, a 17 de junho de 1729; foi um sacerdote católico
francês. Cura (pároco) de Étrépigny por quarenta anos, de 1689 a 1729. Sua notoriedade se deve à autoria de um
tratado filosófico promovendo o ateísmo, descoberto após sua morte, intitulado:
Mémoire des pensées et des sentiments de Jean Meslier [...] pour être
adressé à ses paroissiens après sa mort pour leur servir de témoignage de
vérité [...].
Dele
é a conhecida frase erroneamente atribuída a Voltaire (1694-1778), ao que se
conta, ter ouvido o padre da boca de um camponês:
“Gostaria
de ver todos os grandes da Terra e todos os nobres enforcados e estrangulados
com tripas de padres”; em outra versão, diz: “O homem só será livre quando o
último rei for enforcado nas tripas do último padre”.
Elogiado
e divulgado por Voltaire,
D’Holbach
e Diderot, mentores do Iluminismo francês, ateu, naturalista, liberal e
anticatólico, os quais aprenderam com as lições de Meslier. Um sacerdote do
diabo que deu a luz monstros.
Durante
a Revolução Francesa, muitas das teses de Meslier foram propagadas pelos
jacobinos e os Enragés, fanáticos socialistas liderados pelo padre
Jacques Roux, apelidado de o “Cura Vermelho”.
O
padre Jean Meslier termina a vida no isolamento, na total aversão a religião, e
no niilismo trágico, no final de sua Mémoire, declara:
“Termino pois isto com o nada. Também já sou pouco
mais que nada e, em breve, não serei nada”.
Em
contraste ao anterior, temos São João Maria Batista Vianney, também conhecido
como Santo Cura d'Ars, nascido em Dardilly, Ródano, a 8 de maio de 1786,
falecido em Ars-sur-Formans, a 4 de agosto de 1859. Foi um sacerdote católico
francês, canonizado pela Igreja Católica em 31 de maio de 1925. Declarado
patrono dos Párocos em 23 de abril de 1928.
Uma
de suas frases mais famosas é:
“O
Sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso
Senhor Jesus Cristo."
Modelo
para a vida consagrada. Foi exorcista e exímio confessor, realizou diversos
milagres durante a vida. Menosprezado por clérigos de seu tempo pelo pouco
estudo e erudição, vivia na pobreza e humildade procurando servir a todos, se
humilhando ainda mais quando questionado por quem considerava superior; porém,
ao ser indagado sobre temas e questões complexas de teologia e espiritualidade,
respondia com uma sabedoria miraculosa, que espantava até os doutores.
Seu
corpo se encontra incorrupto até nossos dias, o corpo sagrado do Santo Cura
d'Ars: modelo do sacerdote de Cristo para toda Igreja. Providência de Deus do
interior da França para o mundo.
Apesar
da generalizada corrupção do clero francês durante a Dinastia Bourbón, Deus se
utilizou de um pequenino, para demonstrar seu poder na História; Sua Igreja
sofreu o martírio na Revolução, propalada por tantos outros sacerdotes
diabólicos, além do próprio legado de Meslier; mas, não foi desamparada na
salvação, advinda por meio das mãos consagradas de um São João Batista Vianney.
Concluímos,
pois, que o sacerdote é um “homem híbrido”, digamos assim, um pé na
naturalidade e outro na sobrenaturalidade, é uma condição intrínseca a
ordenação, ordenado segundo a lei divina que rege a lei natural; e por sua vez,
o sacerdote enquanto homem íntegro, deve estabelecer em sua própria alma a
centralidade do divino sobre o natural, tal como o modelo perfeito sacerdotal
na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, verdadeiro Deus, verdadeiro Homem.
Por
isso tamanha disparidade nas duas figuras acima apresentadas, um abismo do céu
ao inferno, que só um sacerdote pode alcançar com tamanha facilidade de
elevação e decadência; não que exclua a possibilidade de qualquer outro assim
também o ser; mas, no sacerdócio há a realidade ainda mais evidente de seguir
ou rejeitar a ordenação divina na alma; tais fatos são caros, e como bem
declarou Nosso Senhor:
“A
quem muito foi dado, muito será exigido; e a quem muito foi confiado, muito
mais será pedido” (S. Lucas 12, 48).
Rezemos
pelos sacerdotes, sempre!
Referências:
TROCHU, Francis. O Santo Cura D’Ars: São João Batista Maria Vianney. 3ª edição, EDITORA LÍTTERA MACIEL LTDA: CONTAGEM – MG, 1997.
BAUDRY, Hervé.
Ateísmo de pena, ateísmo de chumbo:
Jean Meslier entre o silêncio e a explosão. Anticlericalismo, In: REVISTA
LUSÓFONA DE CIÊNCIA DAS RELIGIÕES – nº 20 (2017).
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