"Vós sois deuses": mito e civilização no Cristianismo

O Triunfo do Cristianismo Sobre o Paganismo (1880), Gustave Doré.


Respondit eis Jesus: Nonne scriptum est in lege vestra, Quia ego dixi: Dii estis?

"Jesus lhes respondeu: Não está escrito em vossa Lei: Eu disse: Sois deuses?"
(São João 10, 34)

Ego dixi: Dii estis, et filii Excelsi omnes.

"Eu declarei: Vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo".
(Salmo 82, 6)


A maior empresa de investigação e elucidação que a ciência histórica pode executar em nossa idade, é a de evidenciar o poder e a abrangência da grande obra de purificação e conversão do mundo, feito pela Santa Igreja de Cristo, a Igreja Católica; tal fato peremptório vai além da ambição moderna do futurismo e previsão de um “milênio” inovador deste mundo decaído, o mundo (pagão) que deveria ser extirpado já o foi, e ainda está em vias de desaparecer, conforme o Evangelho avança pelos quatro cantos do mundo.

O próprio Cristo declarou: “Vós sois deuses”, a saber, que a nomeação “deuses” vem de um radical já perdido há muito tempo; no sânscrito preserva-se o Deva, relativo a divindade, um genérico, não o nome próprio de Deus, Deus é um genérico; na tradição judaica fica mais evidente tal distinção, através da Revelação do Sinai do YHWH.

Os santos e missionários católicos no Novo e Novíssimo Mundo foram os novos apóstolos que devassaram o velho mundo pagão, deram continuidade a obra de Cristo, na destruição dos ídolos e mitos do decrépito paganismo que ainda perdurava nos confins do mundo desconhecido até então; os novos apóstolos no Novo Mundo, tratando-se da cosmovisão cristã tradicional, são os novos “deuses” da Idade Cristã, no sentido que o Santo Evangelho nos apresenta, - a Revelação do Cristo revelou coisas ocultas desde a fundação do mundo -, e uma destas revelações, trata-se exatamente da revelação da verdadeira identidade dos ídolos e falsos deuses pagãos, como o Salmista definiu: “os deuses dos gentios são demônios” (Sl 95,5); e ainda o Apóstolo dos Gentios adverte em sua admoestação a Igreja, sobre o perigo da idolatria aos demônios, disfarçados nas divindades pagãs (1 Co 10, 14-22).

As realidades do paganismo e politeísmos antigos foram largamente discutidas e combatidas pela mais alta intelectualidade e sabedoria teológica da Igreja, na chamada Patrística, idade dos Padres da Igreja; autores renomados como: São Justino, Santo Irineu, São Clemente, Santo Ambrósio e Santo Agostinho, souberam explorar a velha cultura pagã, em seu ápice cultural greco-romano, e tirar proveito da estrutura cultural, o que era benéfico e vinculado a Lei Natural e extirpar o que era fruto do misticismo, paganismo e esoterismo.

A capacidade do Cristianismo, salvaguardada a distinção da verdadeira Religião Católica, do que mais tarde se convencionou por cultura cristã, é a de assumir as formas e estruturas reais deste mundo sem o conteúdo e erros oriundos da decadência das velhas civilizações, fundadas em mitos vazios de sentido que não mais supriam o efeito avassalador da passagem do tempo; essa capacidade cristã excepcional e por isso mesmo sobrenatural, é esplendidamente analisada pelo doutor tomista Antonin-Dalmace Sertillanges, O.P (1863-1948), em sua obra O Milagre da Igreja, uma dica de leitura para aprofundar melhor a tese apresentada aqui em poucas linhas; Sertillanges assim explica exatamente este momento único da Igreja/Cristianismo na “Plenitude dos Tempos”, o coroamento da civilização clássica:

A caducidade religiosa do mundo, por ocasião do advento do Salvador, era bastante semelhante ao húmus que se amontoa, sobe as juncadas de folhas mortas, ao pé dos veteranos da floresta. Inerte por si mesmo, o húmus aguardava apenas um germe para irromper em brotos novos.

A Igreja não tinha, pois que trazer tudo. Trazia a essência cuja definição fornecemos, alma permanente que ela deveria para sempre salvaguardar, mas que seus primórdios encarnavam num corpo rudimentar, destinado a progredir em todos os sentidos: doutrinalmente, praticamente, administrativamente, já que o tempo e o meio natural condicionam tudo o que vive. Fidelidade a si mesma e intransigência no que respeita à sua essência íntima; mas também plasticidade e adaptação utilizadora a respeito de um meio providencialmente destinado à sua vida: tais são os dois deveres da Igreja. O segundo é menos necessário, se se quiser; mas essas questões de grau no indispensável não têm nenhum interesse prático. 

S. Paulo chama as doutrinas pagãs, leigas ou religiosas, “os elementos deste mundo” (Gl IV, 3); quer dizer, sem dúvida, as letras do alfabeto ou os rudimentos de palavras com que se constrói o discurso. São elementos; conservam o seu valor de elementos; só são rejeitados se pretendem ser por si só o discurso. Se consentem na absorção, são louvados e utilizados.

A razão fundamental pela qual a Igreja tem essa aptidão e assim procede, é que, divina, isto é, filha do Criador de todas as coisas, é irmã de todas as coisas; é fundada na natureza, e admite a natureza não somente nos seus elementos profanos, mas também nos seus elementos morais e religiosos, que não são menos natureza do que o resto. É essa, para ela, um sinal de catolicidade, “nota” da sua verdade e da sua origem divina. “Só a igreja, escreveu Newman, conseguiu rejeitar os elementos maus sem rejeitar os bons, e fazer entrar na unidade da sua síntese coisas que em qualquer outra parte são incompatíveis”. 
 
A Igreja utiliza, assim, principalmente três coisas: o senso do sublime, tirado do Oriente; o senso do belo e do razoável, especialidade dos Gregos; o senso do justo e do útil, próprio à civilização romana. (SERTILLANGES, A-D. O Milagre da Igreja).

Mencionando ainda um autor da Patrística sobre tal questão teológico-histórica da superação da civilização cristianizada sobre a mitologia pagã decadente, São Justino (séc. II), mártir e filósofo cristão de Roma, que debateu tanto com judeus quanto com gregos; expõe um aspecto fundamental da superação, ou melhor, vitória de Cristo sobre o velho mundo antigo – a CRUX, o símbolo primordial oculto na Criação, revelado na Paixão do Salvador, consumador de todas as coisas. Para São Justino, em sua Apologia, os demônios procuraram de todas as formas cegarem os homens ao longo dos séculos, com seus falsos cultos e mistérios, enganando as nações, com “imitações” de aspectos da verdadeira Revelação da verdadeira Religião:

Todavia, em nenhum lugar e em nenhum dos supostos filhos de Zeus arremedaram a crucificação, por não tê-la entendido, pois, conforme dissemos antes, tudo o que se refere à cruz foi dito de forma simbólica. Ela é justamente, como predisse o profeta, o maior símbolo de sua força e de seu império, como se manifesta ainda pelas mesmas coisas que caem sob os nossos olhos.

Com efeito, considerai se tudo o que existe no mundo pode ser administrado ou ter comunicação entre si sem essa figura. A própria figura humana não se distingue em qualquer outra coisa dos animais irracionais, senão por ser reta, poder abrir os braços e levar, partindo de frente, proeminente, o chamado nariz, pelo qual se verifica a respiração do animal, e que não mostra outra coisa que a forma da cruz. E o profeta falou desta maneira: “A respiração diante do nosso rosto, Cristo Senhor”. E ainda as vossas próprias insígnias deixam manifesta a força dessa figura, isto é, vossos estandartes e troféus de vitória, com os quais em todo lugar realizais as vossas marchas, mostrando os sinais do império e do poder, até quando o fazeis sem vos dar conta deles. As próprias imagens de vossos imperadores, quando morrem, são consagradas por vós com essa figura, e vós os chamais deuses em vossas inscrições.

Uma vez que os exortamos pelo raciocínio e por uma figura patente, na medida de nossas forças, daqui por diante nós não nos sentiremos irresponsáveis, mesmo que continueis incrédulos, pois o que dependia de nós já foi feito e chegou ao fim.
(SÃO JUSTINO, Apologia I e II).

O impacto civilizador do Cristianismo no mundo perpassa todas as esferas, do mito pagão a alta filosofia helênica, - o culto aos santos em resposta ao primeiro e a teologia sagrada ao segundo; a Igreja completa em si mesma, a Plenitude dos Tempos, passados e futuros; Santo Agostinho, em seu tratado da Verdadeira Religião, também nos evidencia a obra transformadora operada no Mundo através da Igreja; como um testemunho uníssono da Catolicidade do mundo, presente e futuro, pois o fatalismo cristão persiste desde sempre; para o doutor de Hipona, o paganismo, a mitologia e a filosofia antiga estavam com seus dias contados; a partir da última Idade (Senectude – Velhice do Mundo) segundo a teologia agostiniana da História, todos os povos e nações estariam submetidos ao destino de ser conquistados e convertidos a Cristo - a verdade revelada do Verbo de Deus:

Se em todas as regiões do mundo habitado são comunicados os santos mistérios cristãos aos que os acolhem e se propõem a segui-los; se esses mistérios são propostos todos os dias nas igrejas, e comentados pelos sacerdotes; se os que se esforçam por segui-los, batem no peito, arrependidos; se são tão inumeráveis os que assumem tal forma de vida que deixando as riquezas e as honras do mundo, vão-se enchendo as ilhas antes desertas e a solidão de muitos lugares, na afluência de homens de todas as classes, desejosos de consagrar a vida ao Deus supremo; se finalmente, pelas cidades e aldeias, pelos castelos e bairros e até pelos campos e granjas particulares tão manifestamente é persuadido e desejado o afastamento do mal e a conversão ao único e verdadeiro Deus, que diariamente o gênero humano, espalhado por todo o orbe quase que responde a uma só voz “que têm o coração levantado para o Senhor”; por que havemos de continuar nos aborrecendo na dissipação do passado e esquadrinhar ainda, oráculos divinos nas entranhas de animais mortos? E quanto à discussão de problemas, por que retermos nos lábios o nome sonoro de Platão em vez de enchermos o coração com a verdade? (SANTO AGOSTINHO, A Verdadeira Religião).

Agora voltemos a nossa argumentação inicial, a obra civilizadora do Cristianismo, primeiro suplantou o paganismo antigo do Velho Mundo conhecido; mas, o paganismo não deixou de existir em todo o orbe terrestre, a descoberta do Novo Mundo e Novíssimo Mundo (América e Extremo Oriente) provocou uma nova etapa na história da era cristã, o desbravamento e conversão dos gentios (terminologia latina que voltou ao uso comum na idade moderna), povos inteiros ainda submersos nas trevas do paganismo antigo e fetichismo tribal arcaico: o primitivismo que o paganismo isolado reduziu por milênios os povos afastados dos grandes centros civilizadores da antiguidade.

De modo especial, a descoberta e colonização das Américas foi este novo salto da Cristandade, formada na Idade Média, dilatada em impérios na Modernidade, o lema lusitano “dilatar a Fé e o Império”, ou o lema espanhol Plus Ultra, foram as novas missões civilizadoras do Cristianismo amadurecido por séculos de assimilação das heranças da antiguidade, renovadas pelo espírito evangélico e pela doutrina católica; o Brasil se destaca dentre todas as outras nações americanas, por ter sido convertida, de modo primordial, pelo sangue e labor do jesuíta, a figura principal de nossa formação civilizacional; dentre todas as ordens religiosas da Igreja, a Companhia de Jesus reluz por sua modernidade, por seu vigor apostólico sem igual. Padre Júlio Maria, grande historiador e apologeta católico, indica em sua obra tal importância de iluminar a ação civilizadora da Igreja no Novo Mundo, o jesuíta é um neoapóstolo; em nosso país eleva-se a pessoa de São José de Anchieta, Apóstolo do Brasil, a narração de seus atos heroicos são provas suficientes para tal paralelismo mítico-histórico ser manifesto nas páginas da História:

Atravessar montanhas escarpadas; arrostar torrentes impetuosas; transpor, sobre abismos, vales e rios; abrir caminho de cerradas brenhas; penetrar nos medonhos recessos de florestas onde o bramir das feras se confundia com a vozeria dos índios; enfrentar o selvagem; falar a tribos bárbaras; permanecer no meio de hordas antropófagas; não obstante setas mortíferas que varavam o peito de uns, e instrumentos terríveis que despedaçavam as carnes de outros, de seus companheiros, atrair, reduzir, fascinar a infeliz gentilidade até prostrar-se diante de uma cruz de madeira, erguida no seio dos desertos, como símbolo da humanidade e da civilização (...) (MARIA, Padre Júlio. O Catolicismo no Brasil, 2021. p. 74).



Anchieta levando o Evangelho de Cristo nas selvas tropicais em meio a tribos de nômades ainda imersas nas sombras de um mundo extinto, cativo a um passado remoto, torna-se um luminar de salvação; a epopeia jesuítica é um exemplo magnífico da divinização cristã, da vitória sobre os últimos domínios demoníacos sobre nações e impérios inteiros – tanto nas selvas brasileiras como nas montanhas incas ou as planícies astecas; para além do historicismo pedante, é devido realçar os princípios cristãos autênticos de preeminência da Verdade sobre o erro e a degenerescência que os velhos mitos prendiam o Homem na treva da ignorância:

Galgou montanhas, atravessou florestas, transpôs planícies e desertos, sofreu, sofreu o rigor das estações, sedes e fomes; mas, conseguiu que milhares de gentios fossem batizados; que em muitas tribos se abolisse o costume da antropofagia; que sobre ídolos de fetichismo se elevassem cruzes do verdadeiro Deus; conseguiu em trinta anos, que aqui viveu e pregou, como diz um dos seus biógrafos, transformar o Brasil que ele tinha encontrado como uma floresta de vícios e pecados, num paraíso de virtudes. (Idem, 2021, p. 81).

E ainda sobre o Apóstolo do Brasil, o caráter lendário, mítico e apostólico se fundem no mesmo indivíduo imbuído de carismas sobrenaturais e virtudes heroicas, advindas do mais excelente heroísmo cristão:

Anchieta é um nome difícil de adjetivar. Também cada cronista, historiador ou escritor que o celebra, dá-lhe um epíteto. Personagem histórico, legendário, quase bíblico, como se expressa Teixeira de Melo -, uns celebram nele o evangelizador das tribos selvagens, outros o gênio da poesia e das lendas, outros, enfim, o patriarca rodeado, no seio das florestas, de uma grande e bela descendência espiritual, que ele gerara no Cristo. (Idem, p. 83).

O jesuíta é neoapóstolo, mas também um novo arquétipo do herói, tal como dos gregos e dos romanos, no entanto, superior; o mito do Herói Civilizador (estudo especial de Religião comparada) tem identificação singular na figura do missionário cristão, na aventura de converter e civilizar os povos e nações pagãs, ainda isoladas pelo tempo e espaço dos avanços propiciados pelo Cristianismo enquanto a mais alta cultura humana já erguida. O missionário do Novo Mundo é um fenômeno híbrido do heroísmo e do apostolado, da força e da virtude, do conquistador e do pacificador, do destruidor de ídolos e do conciliador de tradições, do homem apto a fazer todo sacrifício necessário a ponto do martírio.

Por fim, o Cristianismo consegue se desenvolver como cultura e civilização, um império espiritual feito de homens e semideuses, de vitórias e derrotas - mais vitórias que derrotas; graças à ação providencial da Igreja, Corpo Místico de Cristo que se estende no tempo (História) e no espaço (Mundo); e o objetivo do Cristianismo é converter este mundo a Cristo, efetivar de fato, consumar nesta realidade a “restauração de todas as coisas”, instaurando tudo em Cristo; o que já é o Reino de Deus que não terá fim, assim rezado no Credo. Concluímos com as palavras do sábio teólogo:

“Instaurar tudo em Cristo”, em Cristo socializado que é a Igreja; divinizar assim tudo o que é do homem e humanizar tudo que é de Deus: este é o programa. É ao que tendem todos os empréstimos que, sem que jamais se esgote o seu poder e envolvimento e de vivificação, o Evangelho eterno fez e há de fazer a eterna e universal civilização (SERTILLANGES, Idem).


Referências:

SERTILLANGES, A-D. O Milagre da Igreja.

SÃO JUSTINO, Apologia I e II.

SANTO AGOSTINHO, A Verdadeira Religião.

MARIA, Padre Júlio. O Catolicismo no Brasil. ed. CDB, 2021.

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