AS RODAS DA HISTÓRIA: tentativa de formulação do problema do sentido da História no século XXI
Na geração anterior, diziam: - “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”; suponho que na geração seguinte dirão: - “Tudo na Imagem, nada contra a Imagem, nada fora da Imagem”.
No findar do século passado morria um velho judeu por um acidente automobilístico, ironicamente, o mesmo homem que formulou a ideia de que a História patina velozmente, ou melhor, corre em alta velocidade como um carro numa pista de gelo 1; esse mesmo judeu já havia feito suas profecias, não como seus consanguíneos da antiga Israel, não as fez por via pneumática, mas por via noética.
Ora, ele já antevia a escatológica hegemonia das imagens, ou projetos técnicos do universo das imagens técnicas, que tem seu lugar no: Mundus Imaginalis - mundo intermediário, que os magos e cabalistas medievais tão arcaicamente buscavam manipular; precisaria de mais cinco séculos para que seus descendentes criassem a fotografia, e mais um século de adaptação, para que elas ganhassem vida própria na internet.
Até o presente século, existem milhares de tentativas de solucionar o problema do sentido da História, ou ao menos do Milênio; pois, estamos, impreterivelmente, na Era Cristã; vale a pena optar por um Millenium – Quilil 2, os mil anos dourados, ou os mil anos da última hora; é exatamente neste ponto que me interessa o uso da mais razoável das formulações para nosso tempo, em que as mídias e projetos técnicos estão espalhados por todo o mundo, ou seja, Potestates Mundi:
Quoniam non est nobis colluctatio adversus carnem et sanguinem, sed adversus principes, et potestates, adversus mundi rectores tenebrarum harum, contra spiritualia nequitiæ, in cælestibus. 3
Religião e Política, eis a grande fórmula científica que os mais arrojados buscam, mas não é suficiente, pois Religião e Política são realizações humanas em comunidade, tanto da tribo, do povo, da Pólis, da nação ou raça, tudo é realização máxima da civilização - Civitas - primeira invenção cósmica do homem, iniciada quando Caim fundou Enoch em Nod (exílio) 4; o que nos interessa, ou ao menos deveria, é o que os obreiros ocultos tentaram ocultar, pois quem tem luz, e dar-se o trabalho de analisar o que está oculto, lançará luz nas trevas, e onde há luz, não pode haver trevas; assim, estas se dissiparão, e este é o fim da História.
O sentido para esse fim já é outro problema, como e quando as idades se sucedem e perecem é a incógnita; a História é etária, eis o legado dos antigos para nós; neste presente/futuro caótico, resta apenas esperar, ter esperança; pois só o Lógos tem o sentido, ou ele mesmo o é 5; como o mesmo disse a São João em Patmos:
Ego sum alpha et omega, principium et finis, dicit Dominus Deus: qui est, et qui erat, et qui venturus est, omnipotens. 6
O fim virá, quando o Verbo dissipar as trevas, com o sopro de sua boca:
Nam mysterium jam operatur iniquitatis: tantum ut qui tenet nunc, teneat, donec de medio fiat. Et tunc revelabitur ille iniquus, quem Dominus Jesus interficiet spiritu oris sui, et destruet illustratione adventus sui eum. 7
Como também o canta tragicamente o Dies Irae do Frei Tomás de Celano:
Solvet saeclum in favilla:
Teste David cum Sibylla.
Quantus tremor est futurus,
Quando Iudex est venturus,
Cuncta stricte discussurus!
Sendo assim, neste século último, ou século velho como Santo Agostinho bem chamou: saeculum senescens, todo o tempo histórico é contado e definido pelo Lógos; o Millenium como analogia teológica desta Era Cristã, nos expõe sempre diante de um fim iminente, marca perpétua do fatalismo Ocidental, e também Oriental, a exemplo do Hindu: Kali Yuga - कलियुग.
Religião e Política, Sagrado e Profano; depois de: Boehme, Hegel, Schelling, Voegelin e outros teutônicos 8, basta de tantas formulações obsessivas, mais que se tenta concertar, mais furos na barca aparece; a questão mais crucial para este tempo midiático - não que as realizações máximas humanas sejam obsoletas - é o enigma do Carro da História; a pergunta crucial é a do devir, o que faz correr a sequência irrepetível para o fim são as rodas: quatro rodas, mais exatamente, tal como viu Ezechiel na Visão do Carro-Trono (Merkabah - מרכבה) de YHWH (para sempre seja louvado).
As IV 9 (4) rodas do Carro-Trono do Eterno, que se moviam de modo insólito - e talvez chegue o tempo que nossos automóveis ganhem peculiar imitação; pois bem, o que quero com a analogia do Carro é o caso da Roda: da Roda de Flusser 10, da Roda Solar, da Roda da Fortuna, da Roda Suméria, da Roda dos Ariānus (Svastika), da roda do moinho para a da carroça, da roda que roda em si mesma - perpetuum mobile - que Leonardo Castelo Branco e tantos outros malogrados tentaram re-criar; sonho mítico, que torna-se viável na tecnologia da Modernidade: esta filha ingrata de todas as eras, renegadora de tradições, mas é produto fatal de todos os erros e acertos; das eras anteriores, louvam-na: sumérios e egípcios; Zoroastro e Hermes Trismegisto; Heráclito e Platão; magos e cabalistas; gnósticos e panteístas; filhos pródigos da Igreja e dos Apóstolos, esses orgulhosos dos jesuítas cosmopolitas e dos pontífices viajantes.
As rodas da História, não são religiosas nem políticas; mas, na verdade são os meios dos quais ambos usam para se propagar através das gerações; o Meio, o Intermediário, a Via, o Método, as Ars; me refiro aos meios da comunicação humana, as mídias que hoje imperam, a Mediação; no mandarim pictogramático, fica visível o conceito: 中 (zhōng) - o que fica no meio de tudo - e onde o Tao reside, a imperturbabilidade da alma, a ataraxia estóica que os latinos semearam no coração ocidental, pois a Rota da Seda servia para mais coisas, que meramente comerciar seda.
Logo, na História tudo segue o curso das águas que jamais se repetem, não na marcha calculada dos iluministas, com suas dicotomias causadas por scotomas de homens fracos; o autêntico e invariável progresso da civilização só há na tecnologia, no laborioso domínio do Homem sobre a Natureza; a Cultura é o reduto da Civitas, além de seus muros, há o resto; isto é, a Natura, o Destino hostil e real demais para o Homem, como já havia bem cantado Homero:
Por milhares de anos avanço da História foi lento, a escrita como meio é vagarosa, o raciocínio na leitura leva tempo, deve obedecer a ordenação do texto, sua métrica e estrutura; daí, até a educação plena das gerações muito já havia sido feito, e os poetas e historiadores deveriam correr às pressas para registrar os feitos já consumados; mas, essa lentidão não é exclusiva da escrita, o homem é paulatino, seu corpo e sua mente progridem na velocidade proporcional da vida, tal como uma árvore; como uma vez escreveu o sábio Padre Penido:
"Por que então esse caminhar tão lento? - porque o homem não é um silogismo; só a pouco e pouco descobre – vivendo – as implicações reais dos princípios que desposa [...] ".12
Assim, as imagens sempre presentes na imaginação do homem, e por sua vez reproduzidas na Arte, tão velha quanto a humanidade, tomaram formas cada vez mais sutis para a escrita não poder decifrá-las; o que antes era o poder dos mágicos e sacerdotes, a escrita veio e locupletou-se com esse poder de orientar corações e mentes; da Mesopotâmia para o controle do comércio, aos filhos de Abraão (אברהם) de Ur que levaram a escrita a suas últimas consequências: a escrita da Lei mosaica, ou melhor, a Lei de YHWH (para sempre seja louvado); pois, não foi mão humana que escreveu nas tábuas de pedra, mas o dedo de: הֶיְ הֶ א רֶ שֲא הֶיְ הֶ א - Ehyeh Asher Ehyeh; no grego: εγω ειμι ο ων - Ego eimi ho ôn; sendo no fim das contas para nós: "Eu sou aquele que é".
A escrita passou a ser sagrada. Teria assim o Eterno sacralizado a invenção dos homens? E deu a seus escolhidos as chaves de interpretação de suas vontades convertidas em letras gravadas na pedra?
Não me prolongarei mais nesta história, o conflito dialético entre Imagem e Escrita, os paradoxos da consciência mediada já foram bem expostos nas análises de Flusser 13; o que busco propor aqui, é procurar o que: Lúlio, Leibniz, Cusa, Boehme, Mário Ferreira dos Santos e outros tantos buscaram: o meio que faz o carro correr, as tais rodas estão referidas nos enigmas: da Clavis Profetahrum, da Lingua Universalis, na Ars Combinatoria, nas Dignitates Dei, na De Tribus Principiis, da Mathesis Megiste; e nas potências e potestades governantes dos reinos, impérios e séculos; tudo se refere a causa eficiente da História.
Se tratando dos meios de comunicação, quem os domina, tem poder de falar e calar, até de criar vida; vida artificial é claro, paródia do Criador 14, mas que paródia trágica; e por conta disso, e das demais consequências que constatamos em nosso tempo, considero Vilém Flusser "o último profeta judeu"15 até o presente tempo, ao menos; em sua originalidade genial, rastreou os meios e como a comunicação humana cria e desfaz a História, tanto por meio de um épico, que leva a um povo criar uma civilização em uma lugar infértil, ou por meio de um filme, que faz uma sociedade criar uma nova sociedade de simulacros. Eu temo suas profecias, ou previsões diagnósticas, pois eu compartilho do mesmo temor que o acometia até um ano antes de sua morte causada pelas rodas.
Notas:
2 Santo Agostinho. Cf. De Civitate Dei, XX, 7, 2 (PL 41, 668)
3 Epistola B. Pauli Apostoli ad Ephesios. 6: 12. BIBLIA SACRA- juxta vulgatam clementinam. Londoni, MMV.
4 Victor Hugo. La conscience: In. La Légende des siècles.
5 Ver: São Justino sobre o Lógos spermátikos. Apología II (séc. ii d. C). São Boaventura. Collationes in Hexaëmeron (1257- 1273 d. C).
6 Apocalypsis B. Joannis Apostoli. 1: 8. BIBLIA SACRA- juxta vulgatam clementinam. Londoni, MMV.
7 Epistola B. Pauli Apostoli ad Thessalonicenses Secunda. 2: 7-8. BIBLIA SACRA- juxta vulgatam clementinam. Londoni, MMV.
9 Tal numeral mágico vale para a analogia entis do tetramorphus do Cristo de São Gregório Magno, e por sua vez possui correlato com a Simbólica Cherubínica e com o Tetragramaton – YHWH.
10 Idem. Rodas. In: O mundo codificado: Por uma filosofia do design e da comunicação.
11 Odisseia. Tradução de Manoel Odorico Mendes (1799-1864). Canto XVIII – versos, 105 – 109.
12 Pe. Maurílio T- L Penido. Cardeal Newman. p. 65.
13 Ver: *escritos em: Mundo Codificado; Für eine Philosophie der Fotografie; Die Schrift: Hat Schreiben Zukunft? Ultimo Juízo: Gerações vols. I –II; Comunicologia: reflexões sobre o futuro; Elogio da Superficialidade: o Universo das Imagens Técnicas. * Vídeos em: Klenov Vasiliy - Vilém Flusser -- Television Image and Political Space in the Light of the Romanian Revolution. APRIL, 7. 1990. Kunsthalle- Budapest. Vilém Flusser interview with Miklós Peternák. About Technical Images, Chance, Consciousness and the Individual. Munich, October 17, 1991.
14 Basta apenas mencionar as intenções de criação do Golem (גולם) dos cabalistas e da Artificial Intelligence (AI) dos neurocientistas.
15 Obviamente que considero o risco de ignorar o problema do “falso profeta” na Era Cristã; mas estou a levar em conta suas influências implícitas e explicitas com o Cabalismo; e sua ligação com seu irmão, David Flusser.
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