De Savonarola a Maquiavel: A decadência espiritual da Florença do Século XV e XVI
A Virgem e o Menino com Santa Ana e membros da Família Médici como Santos. Giovanni Maria Butteri, 1575.
Por meio de uma investigação histórica político-espiritual que abarca de certo modo o recorte temporal do final do século XV e começo do XVI, e dos acontecimentos políticos e culturais que preenchem tal transição; tive a pretensão de desenvolver uma análise diagnóstica do Zeitgeist - "espírito da época" - da extinta República de Florença em tais parâmetros; em tal empreendimento, abordarei as figuras basilares de Jerónimo Savonarola (1452-1498) e Nicolau Maquiavel (1469-1527), os quais condessam em suas ações a síntese do cosmion 1 político da Florença: os arquétipos do fatídico e premeditado declínio espiritual da cidade-estado.
Na Florença dos Médici que vem de meados do século XV ao início do XVI, de Cosme de Médici a Pedro II de Médici, mediado este período pelo apogeu da família e da capital com a soberania de Lourenço de Médici, o Magnífico; temos por características, fenômenos de ordem espiritual, que se apresentam por simbólica política e artística.
Tal capital nos anos finais de sua era de ouro é tomada, ou melhor, incendiada pelos comoventes sermões do frei dominicano do monastério de São Marcos, Jerônimo Savonarola; esse personagem - o primeiro arquétipo espiritual do declínio - é aquele que como consta em sua biografia, bem documentada por Pasquale Villari 2 , demonstra um homem devoto a uma causa única: a missão de reformar a "Florença das vaidades", como era nomeada; e para isso se arma com um retórica avassaladora, causando com isso até mesmo adeptos, jovens e crianças militantes da cidade, os chamados: "Chorões" - Piangonis - tão arrependidos de seus atos de luxúria e vagabundagem, que se alistavam nas fileiras da pequena cruzada citadina, de um movimento reformador, a princípio meramente espiritualista.
No entanto, a fama de Savonarola durou até o ano de 1494, quando sua forte combatividade aos Médici, nobreza e clero florentino, e até o Papado de Inocêncio VIII e de Alexandre VI, ocasionou numa campanha conjunta desses para frear a revolta que se iniciava em Florença; que não era algo belicoso, mas espiritual; de tão amplificada que chegou a incendiar Florença com suas enormes fogueiras, repletas de artigos de luxo, decoração, obras de arte (nas quais até o famoso Botticelli lançou algumas de suas pinturas), livros devassos e heréticos, dentre muitas outras cousas; essas fogueiras públicas davam a impressão que toda cidade ardia em chamas; mas, de fato ela ardeu nas chamas de confissões públicas, que o frei causava com suas flagelantes palavras.
Florença não era mais a mesma, o cenário político, avançava para o conflito bélico; já às portas da Grã Capital, Carlos VIII da França a conquistou em 1494, depondo Pedro II sucessor inexperiente de Lourenço; quatro anos depois, em 1498 foram queimados em praça pública frei. Savonarola e seus companheiros freis: Silvestre e Domingos, já enforcados; os Médici caíram, Lourenço morrera em 1492 e com ele a grandeza da outrora capital do Renascimento, donde emergiu os ilustres gênios das Artes: Botticelli, Donatello, Fran Angelico, Dante Alighieri, Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rafael Sanzio, Brunelleschi, Boccaccio, dentre outros.3
No entanto, como nos elucida Eric Voegelin 4 e Leo Strauss 5 6, a queda desta capital se deve ao declínio do espírito medieval fomentado na fórmula Tomista: Fides Caritate Formata; sem a confiança e a ordem política cristã, lapidada pelos doutores medievais, só restará o fim trágico de recorrer ao subterfúgio catártico do paganismo; e foi exatamente nisso que se transformou Florença, num reduto da exaltação antropocêntrica, mais tarde escrachada na gnose hermética de Marsílio Ficino e no cabalismo de Pico de la Mirandola 7; e ainda mais, com a tomada de reveses das forças mundanas, o que culminará na formulação neopagã do Virtú (vontade de poder) sobre a história, contra a Fortuna (o script divino sobre as ações dos homens) , muito bem condensada na obra de Nicolau Maquiavel.
Maquiavel prefigura o segundo personagem da trama, numa tentativa desesperada de salvar Florença das garras do invasor, e restaurá-la a sua outrora grandeza, nisso, empreende em "O Príncipe" (1513), nos seus "Discursos à primeira década de Tito Lívio" (1517), e em "História de Florença" (1525) uma série de propostas que explicitamente promovem a absoluta preeminência do “Médici-Príncipe”, como potentado da Virtú, sem a moralidade e o vínculo espiritual de qualquer natureza; um exímio modelo utópico para a época; algo que só dará seus frutos séculos mais tarde, com o ápice do esvaziamento espiritual das nações no século XIX.
E assim, numa confusão demoníaca 8, de turbulência política e religiosa, e na promoção de novos espíritos históricos agora "demônios" ; a capital que uma vez foi palco dos sermões do frei Savonarola, já nos anos de 1500, é um reduto fragmentado de guerras civis entre famílias nobres, ocupados e influenciados por reinos e impérios; uma capital do culto aos deuses, que perdida no meio de intensas disputas a derredor, acaba praticamente se entregando aos inimigos; o que era para ser um governo longevo, tornou-se uma estrela-cadente prestes a se precipitar no mar, terra onde os Médici eram adorados pelo povo, até o ponto de vilipendiarem os cadáveres daqueles que ousaram tomar o poder de tal família: caso clássico da massacrada família Piazzi.
Niccolò Machiavelli
Os conselhos mentirosos de um Maquiavel não adiantaram, nem a frustrada intentona de frei Savonarola, que por pouco torna-se senhor em Florença, e é chamado ao leito de morte de Lourenço, o Magnífico, como última exortação de arrependimento; contudo, é esta cena que fica marcada na história, como profundo caráter de uma elite que renunciou o sentido da alma individual, era o nascimento do efeito coletivo do Renascimento Cultural como ruptura com o passado.
O efeito que viu Maquiavel ainda jovem, na praça principal de Florença, a fogueira que incinerava os monges revoltosos, e todo o povo inerte diante de tal espetáculo; o que mais tarde, o levou a comentar que o frei só não logrou vitória por ser um desarmado; isto é, sem se utilizar do poder de armas apenas se desgastando em retórica religiosa; típico de um empirista pragmático que só enxerga nesta ótica moderna; mas, já era o efeito da cegueira espiritual sobre ele e em todos; a decadência espiritual de Florença não se fecha nela mesma, mas retrata com clareza a decadência (ou decadências) da Civilização Ocidental: o perpétuo e fanático culto ao espírito coletivo, como primazia das nações, erigidas na grandeza de suas edificações, na mágica das comunicações, e na intenção demoníaca de destruir tudo quanto nos liga ao sagrado tradicional; ou seja, ao Cristianismo, por viés histórico-dialético.
Um sonho tão intrínseco na obra de Maquiavel, claramente um complexo de artimanhas políticas de como separar a Igreja do Estado, e da subserviência desse a primeira, a proposta de utilizar o jogo de forças espirituais imbricadas nessas duas esferas, subvertendo o que é sagrado ao que é profano, reduzindo a importância da moral e da religião (a linguagem já é uma arma divisora) as competências do Estado Laico; disso tiramos em consequência toda idolatria em torno da figura patética de Maquiavel; seu único grande mérito foi saber seduzir e ludibriar as gerações posteriores, e anunciar um novo tipo de manifestação demoníaca na História, onde a falsificação do real veio elevar no plano prático da arte política, concretizada no Estado Laico Moderno, a infalível concentração de poder, uma vez vaticinada da seguinte forma:
"E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? quem poderá batalhar contra ela?" 9
Notas:
1 Termo do filósofo alemão Adolph Stöhr adotado pelo filósofo teuto-americano Eric Voegelin, que significa a ideia de que todo espaço de evocação humana coletiva é um modelo de Cosmos reduzido a condição terrena, onde o sagrado e o profano tornam-se política.
2 La Storia de Girolamo Savonarola e de suio tempi. P. Villari. 1930.
3 A cultura do renascimento na Itália. Jacob Burckhardt.
4 Renascença e Reforma. In: História das ideias políticas. Vol. IV. E. Voegelin.
5 Maquiavel. In: História da Filosofia Política. L. Strauss; J. Cropsey.
6 Reflexões sobre Maquiavel. Leo Strauss.
7 Spiritual and Demonic Magic from Ficino to Campanella. D. P. Walker.
8 Maquiavel ou a confusão demoníaca. Olavo de Carvalho.
9 Apocalipse de São João, cap. XIII.



Comentários
Postar um comentário
Comente, argumente, logicamente, com fontes sólidas. Honestidade intelectual para com a verdade em primeiro lugar.