MNEME: A Destruição do Homem

 


Mnemósinepor Dante Gabriel Rossetti, 1875.


I. MEMÓRIA-HOMEM 

Umas das três faculdades da Alma Humana definida por Santo Agostinho é a Memória, palavra de origem grega, com fundo mitológico, derivada da deusa titânide: Mnemósine (em grego: Μνημοσύνη). A reflexão que proponho é a seguinte. 

Já pensou que em nosso tempo está ocorrendo uma degeneração cultural e psicológica de tais "esferas" de nossa alma? O Intelecto (2ª faculdade) é corrompido por filosofias negativas, e A Vontade (3ª faculdade) é corrompida por ideologias negativas. 

A Memória é a mais afetada, não por ser a mais atacada, mas por sua natureza mesma principial na constituição do cognoscente. O centro de nossa alma é orientada pela Memória, pois: da Vontade nossas inclinações passam pelo Intelecto que racionaliza os pensamentos, os quais são alimentados pela Memória que dá forma às imagens (mundus imaginalis), que por sua vez são convertidas em nossas ideias e pensamentos. 

A destruição da Memória em nossa sociedade "pós-moderna" é velada, sutil, e profundamente enraizada nas heranças de geração em geração, heranças malditas, da corrupção e da negação. Mas daí vem a pergunta: “como ocorre essa tal destruição, que degenera nossa Memória? E quiçá o Homem por inteiro?” Esse é o grande insight que intelectuais como Vilem Flusser e Jean Baudrillard levantaram hipóteses. 

A revolução das imagens técnicas e da comunicação informática foi o princípio de tal destruição geral. Hoje nosso conhecimento está passando por um salto civilizacional (se esse conceito cabe ao menos a enormidade do problema), nossa cultura é regida por imagens veiculadas; o YouTube e o Instagram são exemplos disso. 

 As futuras gerações deixarão de ler livros para aprender por meio de aplicativos. O Transumanismo busca a perfeição de um novo conhecer, o novo homem desligado de sua naturalidade genética – “destruir Adão em nós” –, e para isso a Memória é a pedra de tropeço desta pretensa Nova Ordem do Homem Universal. 

Na nossa Memória guardamos as lembranças e imaginações de nossos antepassados; ou seja, em suma: se quisermos recordar o que é ser humano, é preciso rememorar os feitos e palavras da miríade de mortos de todos os tempos. A História é a ciência-chave dessa tomada de consciência, pois vislumbramos na História: o que foi humano, o que foi divino, o que foi demoníaco e o que foi desumano. 




II. MEMÓRIA-MUNDO 

No século XIX Aby Warburg, antiquário e crítico de arte alemão, concebeu seu projeto: Atlas Mnemosyne – Bilderatlas Mnemosyne, uma referência nos estudos de iconografia e arqueologia das imagens; sua ideia principal era produzir uma coleção universal com todos os tipos e variedades de imagens criadas pelas mais diversas culturas da humanidade, de todos os tempos. 

No entanto, o projeto de Warburg foi mal compreendido, tido apenas como um mero esforço de colecionador e amante das artes plásticas, reduzida sua teoria da imagem, a um mero apreço estético. O século XX chegou e o processo globalista (ideal do progressismo revolucionário) tomou força com as duas grandes guerras mundiais; as imagens passaram a ser as testemunhas oculares dos acontecimentos históricos, e o que Warburg teorizou se tornou realidade: as imagens são fenômenos mnemônicos altamente poderosos, mágicos como diria Flusser; a partir de tal potencialidade das imagens, Warburg afirmava que a Modernidade nada mais era que um Neopaganismo, com a recuperação das imagens perdidas da antiguidade, o homem moderno, revoltado contra o Medievo Cristão, se armou dos símbolos ressuscitados do paganismo e trouxe a superfície da história presente, culturalmente entendido, um renascimento da cultura pagã, e consequentemente da religião pagã. 

Mas você pode estar se perguntando: "o que isso tem haver com a Memória e a Destruição do Homem?" Tem tudo haver. Primeiramente, é preciso ter bem entendido que nossa formação civilizacional é cristã por excelência, fundada nas construções culturais da Igreja Católica ao longo de mais de 1.000 anos. A Modernidade tem em seu âmago, como causa eficiente: a desconstrução da “Catedral Milenar da Cidade de Deus” – Pois, os construtores que a edificaram, rejeitaram a Pedra Angular. 

Se Warburg estava certo, o que houve foi a "ressurreição dos deuses pagãos"; diferentemente do que pensavam os ateus do Dezenove, o intento dos agentes históricos: no Humanismo, no Iluminismo e no Secularismo; foi a destruição do "deus cristão" e o resgate das divindades pagãs, o que fica evidente vasculhando um pouco a biografia dos agentes intelectuais e líderes políticos desde: a Comédia de Dante Alighieri (1265-1321), a criação da Academia Platônica de Florença (1463), a fundação da Royal Society na Inglaterra em 1660 por Elias Ashmole (1617-1694) e a criação da Maçonaria especulativa moderna em 1717 por James Anderson e Jean Théophile Désaguliers; dentre muitos exemplos. 

E como comentado na primeira reflexão, a destruição do Homem primeiro passa pela Memória, e a nossa memória tem como elementos fundamentais as imagens, convertidas em espécies (exemplares) que compõem nosso "arquivo formal" de todo conhecimento humano adquirido pela experiência sensível. 

 A degeneração das imagens em nossa cultura, dando a elas poderes indevidos (fotografia e cinema em um primeiro momento) produziu a reação imediata nas gerações passadas de um esquecimento da "cultura da civilização cristã" para um preenchimento instantâneo de uma nova História, novas cenas de novos acontecimentos, não mais passados, mas presentes e existenciais; o apreço às formas pagãs (não-cristãs) ocuparam o espaço que antes era do imaginário cristão, católico por excelência: maior promotor da cultura clássica, das artes, dos ofícios, da sabedoria racional e contemplativa; em última consequência, o maior erro da Igreja Católica no final da Idade Média foi ser a maior patrocinadora das ferramentas que ela preservou para o bem, e se tornaram as armas que seus inimigos mais ferozes usaram para destruí-la, não ela mesma, não ainda, mas destruir sua presença civilizadora no mundo. 

Parafraseando São Jerônimo: "O mundo dormiu cristão e acordou neopagão". 



São Jerônimo de Estridão, por Albrecht Dürer.


III. MEMÓRIA-DEUS 

Em 1910, Elias Martins, intelectual católico brasileiro, afirmou: 

“A memória é talvez, das faculdades do espírito humano a mais enfraquecida, no período histórico em que vivemos”. 

 A observação cirúrgica de Martins é capital para nosso entendimento de como a degeneração cultural por meio das imagens técnicas dos novos meios de comunicação, em uma velocidade exorbitante, atingiu um efeito avassalador na cognição e na percepção humana do mundo, e do homem de si mesmo. 

O intelectual se referia a mídia impressa dos jornais, e como o esquecimento da geração atual sobre fatos ocorridos no passado recente era espantoso e causa de problemas políticos nunca antes vistos, em grau ou espécie; um exemplo que pode ser dado é a Ideologia Positivista, triunfante em nosso país, como nenhuma outra, até mesmo do "gramiscismo-frankfurtiano", uma simbiose a brasileira do Comunismo; o Positivismo de Comte é um fenômeno inédito do culto idolátrico do Homem pela técnica - um aspecto material e primário da Ars (Arte) que na Grécia Antiga possuía seu lugar devido no domínio dos saberes da Pólis (Politeia - Πολιτεία); a criação de um Estado autoritário concentrado nos poderes materialistas da técnica é o caos do século XX; nem mesmo o culto da razão de Robespierre chegou a tal insanidade, um absurdo feito realidade que provocou a emergência das piores guerras de toda História, as duas grandes guerras mundiais, que abalaram o mundo em todas suas extremidades.

Pela primeira vez, desde Sun Tzu, a glória da guerra pela tecnologia superou a estratégia, e a técnica suplantou a arte. A mecanização do mundo levou a mecanização do homem, a ausência do transcendente, soterrado nos corações e mentes pelo século dezenove niilista, provocou a criação de novos experimentos de massa inéditos em todos os sentidos. 

Outrora, em um século XVIII, por exemplo, tivemos o nascimento da República moderna, aos moldes maçônicos, que muito deviam aos auspícios greco-romanos, com seus exageros à parte; as artes e técnicas dos tempos primordiais se mantinham com o vigor do progresso, a cada século um acréscimo sem se perder a essência. Outro exemplo, é a arquitetura de Vitruvius, que se manteve até o Renascimento Italiano, e ainda no Classicismo; mas, no século XX os fundamentos da lógica e simbólica arquitetônica foram "abolidos" por mentes utópicas como: Le Corbusier, Walter Gropius e Oscar Niemeyer. 

Mas, o maior fenômeno do século XX foi o Cinema: o cativeiro da imaginação. Ademais, em lato sensu, nos referimos a todo o universo das imagens técnicas, como classificou Vilem Flusser: fotografias, vídeos, curtas e longas metragens cinematográficas, designers, ilustração animada, colagem diversa, reflexões, projeções, e toda sorte de impressão imagética. As possibilidades da imaginação humana uma vez aprisionadas nesses arquétipos artificiais, levaram a acontecimentos únicos na comunicação e cognição humana; os modelos e tipologias que antes as gerações buscavam nas artes e letras dos antigos - na escola dos sábios -, passaram a recorrer às fantasias de aberrações como: Disneylândia e Hollywood. 

As novas gerações além do esquecimento do passado, da "Memória da Humanidade", se esqueceram de como imaginar e pensar por si próprias; então, ao alvorecer do século passado, as populações globalizadas passaram a sofrer experimentos de engenharia social de massa, nos adventos, suspeitos e propícios, da: "Guerra Fria"; "Terror Atômico"; "Aquecimento Global"; "Aldeia Global"; "Clonagem"; "Bioética"; "Terrorismo"; "Milenarismo"; etc. Esse último advento, curioso caso de reciclagem religiosa do pânico do "fim do mundo", foi aproveitado para manipulações e uso de técnicas de PNL em massa, que provocou algumas dezenas de massacres e suicídios coletivos, provocados por seitas milenaristas, desde Jonestown (1978) ao Movimento pela Restauração dos Dez Mandamentos de Deus (2000). 

Curiosamente, no início do século XX Ortega y Gasset identificou o fenômeno inédito do "Homem-Massa", que se intensificou com tais surtos fin de siècle, tomando proporções assombrosas: 

“Numa boa ordenação das coisas públicas, a massa é o que não actua por si mesma. Tal é a sua missão. Veio ao mundo para ser dirigida, influída, representada, organizada – até para deixar de ser massa, ou, pelo menos, aspirar a isso. Mas não veio ao mundo para fazer tudo isso por si. Necessita referir a sua vida à instância superior, constituída pelas minorias excelentes”. 

Indo mais além, resgatemos a noção antes levantada do "Transumanismo neopagão", uma invenção devida a um misto de satanista com médico louco: uma quimera com cabeça de Anton LaVey em corpo de Joseph Mengele. Só uma mente excêntrica como a de William Blake pra ilustrar figura tão horrenda. Pois bem, tal invenção pós-moderna tem seu fim: a destruição do Homem; e essa é nossa reflexão final, tendo de um lado as garras da quimera demoníaca a todo custo destruindo a memória de nossa humanidade, e de outra nossa alma despedaçada, tendo suas faculdades dispersas, pondo, assim, em desequilíbrio todo nosso ser. É Mnemósine raptada, a titânide esposa de Zeus, mãe das nove musas do Parnaso, que deixadas órfãs não podem mais servir de inspiração aos homens; o colo materno de Mnemósine está se esvaindo, à medida que nossas crianças são soterradas de filmes, e aprendem a odiar livros. 

O fim da Memória é o fim da Arte. 

Em todo caso, os remédios das doenças dos antigos não nos servem mais, nossa civilização recebeu o maior antídoto de todos os males: CHRISTO. 

O Cristianismo como cultura: "o culto da Pólis a Cristo" é o triunfo do Redentor sobre todos os ídolos; e como o mesmo pronunciou na última Ceia: τοῦτο ποιεῖτε εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν. 

Que quer dizer: "Fazei isto em minha memória". Mais que um símbolo insuficiente, Cristo deixou a si mesmo, sua real inteireza na Eucaristia, e só pela rememoração do Sacramento o homem pode crer, compreender e salvar-se. O ensinamento do Rabi (Mestre) é a atualização do que foi, do que é, e do que será. A visão do homem não pode ser somente da temporalidade e da materialidade, mas da Eternidade e da Imortalidade. 

Como Santo Agostinho utilizou em sua analogia entis, unindo o Homem a Deus, da finitude a eternidade; de tal modo que podemos conceber a imagem (imperfeita) da Santíssima Trindade em nós, na união substancial de nossa alma em suas três faculdades: Memória, Intelecto e Vontade. 

Em memória dEle podemos reconhecer Ele em nós; a divinização do Homem (theosis) por meio da Ordem Suprema passa através de nossa alma, na relação orgânica do ser, na comunicação entre o Intelecto e a Memória, e da Vontade a Memória e por sua vez da Memória ao Intelecto e a Vontade. 

A destruição do Homem passa pela corrupção da Memória, que também é corrupção do Intelecto, e corrupção da Vontade; Pois, como St. Agostinho correlaciona a natureza unitiva de nossas faculdades:

 “Concluindo: como todas e cada uma das faculdades se contêm reciprocamente, existe igualdade entre cada uma e cada uma das outras, e cada uma com todas juntas em sua totalidade. E as três formam uma só unidade: uma só vida, uma só alma e uma só substância”. 

Atualmente os jovens, principalmente, sofrem com a falta de personalidade, um vazio existencial preenchido pela moda de então, que nasceu ontem e morrerá amanhã; a efemeridade das paixões, o esvaziamento do sentido, a incapacidade do raciocínio, e o esquecimento do que é ser humano. 

A História, mestra da vida, vem trazer à tona o que realmente devemos fazer. Cristo fez da História um tapete estendido sob seu trono, tem seus inimigos por escabelo de seus pés, segura a sua destra o livro que contém escritas todas as coisas: que foram, que são, e que hão de acontecer. 

O Espírito Santo revela o Filho que leva ao Pai. Assim, analogicamente, entendemos que a Vontade dirige nossas inclinações para o Intelecto, e esse ordena nossos pensamentos conforme as formas da Memória. 


Referências: 

Santo Agostinho. Livro X. In: De Trinitate – Tratado sobre a Santíssima Trindade. 
Vilem Flusser. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. 
________________. O mundo codificado: Por uma filosofia do design e da comunicação. ________________. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. ________________. O Último Juízo: Gerações I e II. 
Jean Baudrillard. Simulacros e Simulação. 
José Geraldo de Oliveira. Arqueologia de interface: Warburg, memória e imagem. 
Aby Warburg. A Renovação da Antiguidade Pagã: Contribuições Científico-culturais. 
Atlas Mnemosyne - https://warburg.library.cornell.edu/panel/47 
Elias Martins. Guerra Sectária. 
René Guenón. O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos. 
___________. A Crise do Mundo Moderno. 
Olavo de Carvalho. O Jardim das Aflições: De Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil. 
__________________. O Saber e o Enigma: Introdução ao Estudo dos Esoterismos. __________________. Aristóteles em Nova Perspectiva. 
José Ortega y Gasset. A Rebelião das Massas. 
Thomas Bulfinch. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. 
Emmanuel Malinsky; Léon De Poncins. La Guerra Oculta. 
Mircea Eliade. O Mito do Eterno Retorno. 
Modris Eksteins. A Sagração da Primavera: a Primeira Guerra Mundial e o Nascimento da Modernidade 
Thomas E. Woods Jr. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. 
Alain Besançon. A infelicidade do século: sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade da Shoah.
 Roger Scruton. A alma do mundo: A experiência do sagrado contra o ataque dos ateísmos contemporâneos.

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