O Fim da Política na Era da Imagem no Poder
1. Política, linguagem e realidade.
Em seu ensaio sobre a origem e os fundamentos existenciais da linguagem, Rosenstock-Huessy definiu: "A linguagem é a constituição política de um grupo além do tempo e espaço de vida de um indivíduo, além do senso comum e do senso físico".
Rosenstock em sua definição sociocultural da linguagem nos concede a noção fundamental de que todo ato de comunicação humana é criativo e normativo; ou seja, em nossa cultura as expressões de linguagem tanto: oral, escrita ou imagética, tem por fim a orientação do homem em sociedade, para além de sua individualidade, tanto mental como corporal.
A política é a linguagem formal que se estabelece entre o governante e o governado, em suas variações históricas a política primeiro se estabeleceu na comunidade humana sobre a forma oral, de geração a geração; depois passou para a fase da forma escrita, quando as leis passaram a ser gravadas e ter uma constituição logica intrínseca a sua escrita; e por fim, em nosso tempo, a política chegou a fase imagética, a imagem que orienta a política.
Por quê a inversão? Ora, como Flusser nos aponta, a consciência (fenomenologicamente) da escrita é linear, nosso entendimento ao ler qualquer texto é retilíneo e progressivo, e a consciência política se assemelha a esta, pois também é linear e progressiva, a lógica de ambas se complementam. A fase oral da política e das leis era primitiva, e estática (a exemplo das tribos existentes até hoje que não saíram do Neolítico); mas a maioria das civilizações se fundaram desta “simbiose” escrita/política.
A exceção é a civilização ocidental em seu progresso técnico tão avassalador que saturou o processo histórico interno, a tal ponto de saltar para outro grau de comunicação, de linguagem e de, consequentemente, dissolução política, e logo em seguida de um relativismo de ideologias e de uma linguística incompreensível aos moldes tradicionais da política, desde sua formulação lógica de Platão a Hegel.
Enfim, o fim da política, é o fim da escrita, ao menos como o meio de comunicação principal de uma civilização.
2. A consciência infeliz.
Flusser citando Hegel diz: “Quando saio de casa para conquistar o mundo perco-me e quando volto para casa para me encontrar perco o mundo”.
Logicamente entendemos que a linguagem escrita é a qual se aplica tal dialética hegeliana, pois até onde se pendurou a política convencional, as notícias da política eram publicadas em público (da ágora a praça do jornal): o político projetava uma nova lei, o escriba ou o jornalista levava até o público a notícia da lei, e o povo do público voltava para casa com tal publicidade para reproduzir tal lei registrada em privado em outro lugar.
Assim, temos a seguinte transmissão comum da política: {espaço privado > espaço público > espaço privado}
Essa mesma dialética política intrínseca a natureza da comunicação escrita, Hegel chamava de consciência infeliz, pois, toda consciência política é infeliz. Não pode existir paraíso político, como bem destacou Flusser em 1990.
Quando eu me perco, eu encontro o mundo (sair do privado para o público) e quando eu perco o mundo, eu me encontro (sair do público para o privado); qualquer plano ou sonho político tem de necessariamente passar por essa inversão ontológica, tem de sair da ideia (tese) para a realidade, e na realidade sofrer o choque com o “estado natural das coisas” (antítese), e na consciência do indivíduo receptor evoluir para sua influência possível (síntese); eis aí a cova de todo fracasso ideológico.
3. Século XX: o laboratório do horror.
Em resumo, o século vinte foi o maior experimento do quanto ideias privadas, aplicadas a força (coercitiva) em público, foram letais para às consciências de milhões de indivíduos, que sofreram pela falta de consciência daqueles que projetaram suas ideias coercitivas (ideologias); no entanto, tal poder das ideias não foi meramente a combinação de altas doses de maldade em seus textos (a exemplo de Marx e Hitler propondo a aniquilação de “raças inferiores”), mas também da praticamente progressiva destruição do espaço intermediário da política (o público) e consequentemente o prolongamento desenfreado do alcance de ideias perigosas para uma quantidade grande de pessoas.
Não à toa, a era do triunfo do Totalitarismo é o do trinfo da técnica e da comunicação humana, pelas novas mídias que paulatinamente anularam o intercambio natural do político, causando fenômenos estranhos de indução em massa.
Primeiro pelas imagens de propaganda (o cinema de Riefenstahl e Eisenstein), anulando os livros e almanaques; depois as imagens televisivas (telejornalismo e teledramaturgia) anulando os jornais impressos e as revistas de entretenimento; e por fim presenciamos a imagem digital e virtual, que além de anular a leitura digital, serve de substituição das “velhas” imagens televisivas e de propaganda política.
4. Homem-Massa vs Homem Concreto.
“O espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social entre pessoas, intermediada por imagens… O espetáculo em geral, como uma concreta inversão da vida, é um movimento autônomo do não vivente… O mentiroso mentiu pra si mesmo”.
Assim, descreveu seu tempo regido pelas imagens, Guy Debord, líder da IS (Internacional Situacionista) movimento revolucionário principal responsável pela Revolução Cultural de 1968 iniciada em Paris (Sorbonne).
No entanto, Debord não atinge realmente a exatidão real da gravidade do problema moderno, é preciso escapar de sua ideologia marxista, materialista e historicista. Levar-se em conta a revolução em seu aspecto imediato, na funcionalidade das imagens e seu fim anti-político.
Não se presta a devida atenção na interferência da revolução tecnológica dos meios de comunicação (mídias modernas) como vetores que dirigem o espetáculo da sociedade de consumo que por sua vez pela promoção do consumo gera o espetáculo, a mentira que alimenta a si mesma, ou seja: Alienação. Nesse caso, não mais de uma classe, mas da sociedade inteira.
De uma sociedade como essa, só se pode estudar o Homem-Massa, difuso no coletivo abstrato de ideologias que pintam cada uma a sua própria imagem um ideal de Homem, cada escola prega sua antropologia, sem levar em conta o único homem que interessa: o Homem Concreto. Eu e você, (hic et nunc) aqui e agora. Para além de qualquer mediação, o ser persiste.
Em nosso tempo, a velha política não serve para o novo homem; é preciso pensar com as imagens projetadas pelas ideologias, que por sua vez são retroalimentadas pelas imagens, vice-versa. É uma péssima troca, é condenação certa a entropia negativa.
5. A Política no leito de morte.
“A morte da política é simplesmente o fato de que não existe um espaço público para se publicar, nem mesmo um espaço privado para se ser privado. Não se pode nem politizar a economia (o objetivo da esquerda) nem privatizar a política (o objetivo da direita) - assim não nacionalização nem perestroika - porque, devido à ‘revolução’ das comunicações, acima de tudo a mídia eletromagnética, ninguém pode falar de publicação e privatização”. – Vilem Flusser, 1990.
Em outra ocasião Flusser indicará a Revolução Romena (1989) como a causadora de tal revelação da “morte da política”, iniciando uma era da imagem no poder, pós-histórica, onde o “acontecimento histórico” (ex. fuzilamento do casal Ceaușescu) foi provocado pela projeção das imagens técnicas, no caso da televisão em rede aberta, com a intenção de causar o consenso e o horror coletivo. Para ele a partir dessa nova experiência fenomenal da comunicação, o que entendemos como política perderia seu sentido de ser, e outra coisa passaria a definir os rumos da pós-história: a Telemática – a experiência irreal ou hiper-real produzida pela telecomunicação aliada a informática.
6. Globalismo e Entropia.
Um sintoma da entropia negativa produzida pela saturação globalista de ideologias é a “Quarta Teoria Política” do excêntrico Aleksandr Dugin, teórico político russo, ligado ao conselho de Estado de Vladimir Putin. Que consiste em superar o Liberalismo, Comunismo e Nacionalismo com a mescla dos pontos positivos dessas ideologias e ir mais além; fincado na “política multipolar” de irradiação multicultural, criando um particularismo prático com ares de universalismo teórico: a mistura ideológica de toda diversidade de elementos culturais e tradicionais (etnos) em contrário a homogeneização cultural globalista do capitalismo pós-liberal.
Tal inovação estratégica é tentadora para grupos sectários espalhados por todo planeta; só há dois problemas: primeiro não se aplica mais tais conceitos políticos convencionais em uma era da imagem no poder, onde se fala uma coisa aqui, e amanhã cria-se outra coisa diametralmente oposta a primeira em outro lugar do mundo; e segundo, a entropia pós-histórica já está em sua metástase, após incidentes como o 11 de setembro, ou mais recentemente, a invasão da Ucrânia, gerou um mundo de incertezas: a exemplo de cenas da invasão da Crimeia de 2014, reproduzidas em 2022.
Nosso contato com tais experiências é praticamente nulo, escapando apenas nossa “fé na imagem”, onde tudo que nos resta é submeter nossa inteligência a percepção imediata, sem a capacidade normal de filtrar tamanha quantidade de informações instantâneas, é o fim da mediação espacial entre emissor e receptor, e por sua vez, um perigo para nossa interpretação da realidade. Simplesmente não sabemos, se aquilo foi: a imagem de um ato político, ou o ato político da imagem.
Em todo caso, o exame de tais fenômenos contemporâneos requer bases teóricas contemporâneas, que infelizmente recaem ou no ceticismo radical (Baudrillard), no fenomenologismo (Flusser), ou na semiótica sociológica (McLuhan); de todo modo, tudo ainda repousa no campo da especulação, pois nem mesmo autores contemporâneos sabem lidar com sua nova terminologia sem recorrer às velhas fórmulas históricas. Querendo ou não, o que temos a cada dia é uma política sem mediação, uma história sem linearidade, e uma linguagem relativizada ao extremo.
Nosso século está pautado no dialogismo: Ideologia-Imagem. Uma alimenta a outra, como se houvesse uma força oculta entre ambas as categorias. Até este ponto, tateamos no escuro, em uma temporalidade e espacialidade que desafia nossa concepção natural de perceber e entender nosso eu-no-mundo.
Referências:
Vilem Flusser. Pós-história: vinte instantâneos e um modo de usar.
_____________. Na morte da política. Transcrição de trecho da palestra: "Media and revolution'', Iannann, Alemanha, 17 de novembro de 1990. Realizado no ViIem-Flusser-Archiv, Universität der Kunste, Berlim.
_____________. Television Image and Political Space in the Light of the Romanian Revolution. Budapest, 1990. disponível em: https://vimeo.com/492215071
Guy Debord. A sociedade do espetáculo.
Jean Baudrillard. O paraíso artificial da política.
_____________ . Simulacros e Simulação.
Alain Besançon. A infelicidade do século.
José Ortega y Gasset. A rebelião das massas.
Eugen Rosenstock-Huessy. A origem da linguagem.
Stéphane Courtois; Nicolas Werth; Andrzej Paczkowski; et all. O livro negro do comunismo.

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