RESENHA: BESANÇON, Alain. A Infelicidade do Século: sobre o Comunismo, o Nazismo e a unicidade da Shoah. RJ: Bertrand Brasil, 2000. p. 35–80.




A presente obra do historiador francês Alain Besançon (1932-), diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS, possui a característica de revelar muito do pensamento político de tal pensador contemporâneo, formado no Institut d´Études Politiques de Paris – Collège Stanislas de Paris; Besançon foi comunista nos tempos do Stalinismo, mas depois passou a adotar uma posição crítica à ideologia comunista e outras formas de totalitarismo, a exemplo de seus trabalhos como: A Infelicidade do Século (Le Malheur du Siècle – 1998); As origens intelectuais do Leninismo (Le origines intellectuelles du Léninisme – 1979) e A falsificação do bem: Soloviev e Orwell (La falsification du bien Soloviev et Orwell – 1985).

Besançon também é um acadêmico voltado por temáticas diversas, ligado a um pensamento conservador francês liberal ao estilo de Raymond Aron (1905 – 1983), por investigações de desenvolvimento da filosofia crítica das ideologias modernas e de aspectos da alta cultura europeia, temas caros para a intelectualidade que alia política e religião como estudos concomitantes e necessários; um exemplo de sua produção ensaística em temática diversa é seu: Imagem Proibida: uma história intelectual do Iconoclasmo (L´image interdite, une histoire intellectuelle de l´iconoclasme – 1994). 

Na obra, como já dito, temos elementos que denotam bastante as linhas gerais do pensamento crítico político de Besançon, sua aversão as ideologias totalitárias (Nazismo e Comunismo) que deturpam a realidade estabelecida em promoção de suas utopias de destruição física, moral, política e espiritual; tendo em conta tal posicionamento filosófico e historiográfico do autor, podemos averiguar mais especialmente a parte selecionada dos capítulos II e III, cujo os títulos são respectivamente: “A destruição moral” e “A destruição política”. 

Sobre a destruição moral, o autor tecerá sua argumentação partindo da fatalidade que é a infelicidade perpetrada contra às mentes e às almas das vítimas tanto do regime Nazista quanto Comunista, que o autor tomando de empréstimo a definição de Pierre Chaunu, ambas ideologias e regimes são “gêmeos heterozigotos”; pois ambas possuem uma essência totalitária e de subversão do real em comum, mas cada qual com suas características próprias de atuação histórica; logo, ambas também parte da inépcia intelectual e moral da sociedade que se encontra, levando a uma espécie de patologia artificial de um psiquismo ideológico coletivo; nesse estágio de decadência, segundo Besançon tem-se o espaço ideal para o predomínio da chamada: “falsificação do bem”. 

Primero ele analisa a “falsificação nazista do bem”, baseando-se em especial nos “Discursos secretos” de Heinrich Himmler (chefe da Waffen-SS) de onde se extrai toda a ética nazista e do ideal do ariano virtuoso, que compungido pela causa coletiva do partido toma como lícito o extermínio dos judeus pela preservação da raça superior, na formulação de um justo meio virtuoso de matar; Besançon define tal movimento de consciência para uma alienação ideológica, nos termos de que: “a destruição moral tem como instrumento uma falsificação do bem tal que o criminoso, em uma medida impossível de precisar, possa manter à distância a consciência de que pratica o mal” (BESANÇON, 2000, p.40). 

Na “falsificação comunista do bem” o autor continua na mesma definição de destruição moral, mas no caso comunista temos a particularidade da universalidade do ideal comunista do novo homem e de sua nova moral, as quais são tidas por sobre-humana e sobre-humanitária, e por isso mesmo irrealizáveis e destruidoras do homem real; Besançon marca a destruição moral comunista como mais ampla e duradoura que a nazista, por criar uma realidade-ficção, gerando uma degenerescência moral e uma desumanização de difícil recuperação social a longo prazo; o homo sovieticus é praticamente um novo espécime, de tamanha modificação de seu espírito pela “pedagogia da mentira”; para Besançon, em linhas gerais, o comunismo teve seu sucesso de destruição moral garantida pelas gerações seguintes, que não conseguiram contemplar o horror e permaneceram na mentira e na pseudo-realidade socialista; logo, em última análise: “pode-se continuar comunista após o Holodomor, mas não nazista após Auschwitz”. 

A destruição política teve seu lugar em ambos os regimes, com “a política de destruição do político”, a neutralização abrupta da velha ordem política, e com isso, restou apenas a única organização sobrevivente: o próprio partido revolucionário; a sobrevivência da velha ordem natural terá sua manifestação mais nítida no imediato “culto ao líder” que o Totalitarismo propõe; desse processo, chega-se a destruição política do real pelo fim último, o futuro imaginário da utopia; no caso nazista era o resgate do passado mítico dos arianos e a purificação das raças sob a égide do terceiro Reich; no Comunismo, o glorioso futuro escatológico da “Arcádia moderna”, a passagem do auto-movimento da História do “reino da necessidade” para o “reino da liberdade”. 

Observamos que a postura crítica de Besançon sobre os dois tipos de destruição, é de balizar tanto o Nazismo quanto o Comunismo sob o espectro causal da ideologia em si para com sua aplicação prática na realidade; constata ele que ambos os regimes tiveram suas origens nessa tentativa de conformar o real na forma ideal ideológica, isso por vias totalitárias que causaram imediatamente a destruição massiva da ordem natural em seus ambientes políticos; tal ponto é bem constatado por identificar não só a ligação de um plano ao outro, mas de apontar quais as estratégias políticas e culturais do Nazismo e Comunismo na implantação de seus fins; e onde se pode constatar pela verificação histórica, fora na dinâmica do estrategismo: o nascituro tanto do fracasso do Nazismo quanto do sucesso do Comunismo. 

Outro ponto notável na análise crítica de Besançon são suas constantes comparações entre as duas ideologias, suas semelhanças e diferenças; no caso nazista se enfatiza a característica principal de seu “esteticismo da doutrina” herdeiro do Romantismo alemão wagneriano; o que é bem acertado, mas poderia se acrescentar outros elementos cruciais de formação ideológica, tais como as influencias contemporâneas de elementos esotéricos advindos dos círculos ocultistas germânicos em voga, tais como as sociedades: Thule-GesellschaftOrdo Novi Templi e Vril; com esses elementos a identidade do programa nazista se completa, e observações de Besançon sobre peculiaridades nazistas como: o führerprinzip, o Lebensraum, o mito da raça vindoura ariana e o volksgeist; teriam uma profundidade bem mais considerável.

Sobre o Comunismo o autor se detém bem mais largamente, e enfatiza do início ao fim a vileza e a eficácia destrutiva do programa comunista superior ao nazista, o que se justifica por sua ambição universal original e pelo fato de que o Comunismo logrou mais sucesso no cumprimento de seus fins ilimitados, que o Nazismo que teve sua ruína prematura. 

O Comunismo tem sintetizada sua origem e base fundamental ideológica nos dois princípios antagônicos (espírito e matéria) e na sequência dos três tempos históricos (o passado primitivo ideal; o presente hostil e o futuro escatológico); aqui Besançon pouco explora tais raízes hegelianas, o que faz somente mais a frente ao tratar da "Teologia" e do Gnosticismo imbricado na ideologia. 

Alain Besançon encerra o estudo da destruição política com a cirúrgica constatação dos fins ilimitados dos dois regimes, causa da ruína nazista por sua precipitação irracional romântica, e do sucesso duradouro comunista pela estratégia racional sistemática e dialética; mas ambos sucumbem aos fatores externos e pela autodestruição do partido pela usura interna que assola qualquer instituição humana.

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* Cf: Giorgio Galli. Hitler e il nazismo magico: Le componenti esoteriche del Reich millenario. Milão: Rizzoli, 1989.

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