RAÍZES HISTÓRICO-FILOSÓFICAS DO NACIONALISMO ALEMÃO
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| Apotheosis of Kaiser Wilhelm by Ferdinand Keller, 1888 |
O ímpeto nacionalista toma corpo diante de uma certa revolta para com as leis da hegemonia continental europeia, como é o caso das campanhas expansionistas de Napoleão Bonaparte (o gênio prático da Revolução francesa). As invasões sucessivas dos territórios prussianos e bávaros-austríacos levaram as insurreições desse tipo de reacionarismo germânico; conflitos bélicos e orgulho pátrio, chegaram a influenciar obras filosóficas, como no clássico exemplo de Fichte, como demonstra tal fenômeno:
Sustenta-se aqui que essa “originalidade”, que a capacidade de certos autores de regiões periféricas, em alguns momentos, de inovarem, de revolucionarem o pensamento e o mundo, são manifestações de uma vontade de afirmação e de autonomia presentes nos processos de construção nacional. Tanto Johann Gottfried Herder (1744-1803) quanto, depois dele, Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), desse ponto de vista, são expressões da longa e tortuosa via da construção da nação alemã. Tanto o livro “Idéias para uma filosofia da história da humanidade”, de Herder, de 1784, quanto os “Discursos à Nação Alemã”, de Fichte, pronunciados em 13 de dezembro de 1807 e 20 de março de 1808, fazem parte do mesmo processo que, muito tardiamente, resultará, em 1871, na unificação do Estado Nacional alemão (PAULA, 2008, p.222).
Com a ocupação de Napoleão Bonaparte sobre o território Prussiano por volta de 1805-1806, derrotando as últimas forças do Imperador Frederico, o Grande, na batalha de Jena em 14 de outubro de 1806, o poderio daquela que era considerada a maior potência militar da Europa caía de joelhos diante do sucesso do General Francês (MCGUIRE, 1987).
Era neste cenário de derrota e desilusão que o povo germânico se encontrava, foi em meio a este cenário caótico que o filósofo herdeiro legítimo do Idealismo alemão de Kant, Johann Gottlieb Fichte nascido em Rammenau em 1762, de origem pobre e camponesa, vivia em Jena na época da invasão francesa, e estava a produzir as páginas finais da Teoria da Ciência Pura; no entanto, impactado pelo cenário a redor, e comprometido por um sentimento de revanchismo diante da ocupação estrangeira, muda seu curso filosófico para desenvolver a partir de 1807-1808 a Teoria de Estado (Staatslehre) e empreende uma série de discursos, conhecidos como Discursos à Nação Alemã (Reden an die deutsche Nation) (MARÍAS, 1980, p. 297).
Clamando ao povo por uma reforma política, por uma proposta de Estado, forte, fechado e comunitário, buscando um ideal unificador dos povos germânicos congregados em uma forte égide estatal para suprir a necessidade de segurança e protecionismo coletivo diante do mal invasor, um invasor que claramente provocava a célebre pergunta: “não somos todos irmãos da mesma terra?” Os esforços de Fichte tiveram seus efeitos sobre a mentalidade Nacionalista da época como esclarece (PAULA, 2008, 223): “Os Discursos de Fichte estão investidos de um caráter teórico de alcance geral ao construir, de maneira definitiva para a Ciência Política, o conceito de Nação como ente valioso, dotado da realidade histórica viva, e provido de um direito imanente”. Tais ideias se diluirão com o tempo, influenciando ideias de Estado mais à frente, como no modelo Bismarckiano e até nas Teorias do Socialismo Científico de Marx e Engels.
Os movimentos não só literários, mas filosóficos e mais tarde historiográficos eram levados pela onda da contra-revolução, os intelectuais alemães entendiam que tais ideias de rupturas revolucionárias nas tradições míticas e patrióticas do povo alemão levaram a um caos contrário a ordem natural proposta pelo próprio curso da Realidade; influenciados maciçamente, e principalmente os historiadores, pela vertente do Historicismo-Dialético de Friedrich Wilhelm Hegel (1770–1831), celebre reitor da Universidade de Heidelberg; este modo de pensamento conservador permeou o modus operandi do Nacionalismo alemão como conhecemos.
A forma do Nacionalismo alemão é segundo o teólogo francês Henri de Lubac baseado no simbolismo Cristão do “Povo de Deus”, uma modalidade que se desenvolveu inclusive com a Filosofia da História de Hegel, fundamentada naquilo que ele chamava de “Espírito do Real”; o mesmo que mantém o curso dialético e natural da História. Lubac explica tal “Espírito”, que para Hegel é o ideal exclusivo dos povos germânicos, herdeiros do “Reino de Deus” na terra:
“O mundo cristão é o mundo da conclusão”. Mas ainda não é mais do que em promessa. Somente quando a fé cristã tiver penetrado no mundo germânico ela perceberá sua novidade e então será possível dizer com toda a verdade que "os tempos estão cumpridos". Só as nações germânicas "estavam destinadas a ser os suportes do princípio cristão", porque a "pura interioridade" do "seu coração simples e reto" oferecia "o terreno verdadeiramente propício para a libertação do espírito"; somente neles "vivia um espírito completamente novo que deveria regenerar o mundo, a saber: o espírito livre que repousa sobre si mesmo, o sentimento autônomo absoluto da subjetividade". A velha Roma desempenhou um papel indispensável, por sua Igreja e por seu direito, mas não pôde dar ao princípio cristão o apoio necessário; nenhuma das "nações latinas" poderia, porque, carregadas de uma mistura de sangue latino e alemão, sempre guardam em si um princípio de divisão, uma "heterogeneidade". O povo germânico, único verdadeiro sucessor do antigo povo grego, estava destinado a levar o cristianismo até o fim, realizando "a verdade absoluta como determinação autônoma infinita da liberdade", que é o próprio espírito do mundo moderno. (LUBAC, 1988. p. 359).
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| Siegfried e o dragão Fafnir |
Diferentemente do modelo francês revolucionário identificado com as heranças da própria experiência da Revolução de 1789, os alemães vão se caracterizar pelo sentimento Romântico e Idealista das velhas heranças Gregas, como no caso do Hyperion de Johann Christian Friedrich Hölderlin; e heranças Nórdicas, como mais à frente florescerão na famosa ópera O Anel dos Nibelungos de Richard Wagner; tais idealizações tomaram corpo na forma do Estado-Nacional na unificação alemã de 1871.
Como foi dito os pensadores influenciados por Hegel e sua Filosofia da História são casos emblemáticos como ressalta (PAULA, 2008) de adesão a uma modalidade de pensamento por parte dominante nos círculos intelectuais alemães, no caso o Historicismo, temos pois, os exemplos mais relevantes, nos campo da Teoria do Direito: Friedrich Savigny (1779-1861), Gustav Hugo (1764-1844) e Karl F. Eichhorn (1781-1854); e na Historiografia Metódica de: Barthold Niehbuhr (1776-1831), Leopold Ranke (1795-1886), Gustav Droysen (1808-1884), Heinrich Sybel (1817-1895), Theodor Mommsen (1817-1903) e Heinrich Treitschke (1834-1896); e especialmente os Historiadores desempenharam papel fundamental no processo de fixação dos mitos e símbolos nacionais:
Sobretudo os historiadores foram adeptos da ‘pequena Alemanha’, da Alemanha sob o domínio prussiano e que excluiu a Áustria da unificação germânica. Defensores da tradição prussiana, e futuros partidários da política bismarckiana, esses historiadores que surgiram entre 1840 e 1848 são, na verdade, ‘historiadores do novo império alemão; ainda que suas obras, com exceção de Treitschke, sejam anteriores à formação deste Império’ (Guilland, 1899, p.2-3). (PAULA, 2008, p. 226).
Entendemos pois que o processo de penetração de novos idealismos nas correntes de discussão histórica é algo de alta estima, pois adentra especialmente no campo da Teoria da História e sua metodologia. Tanto Fichte e Hegel tiveram suas significativas contribuições para a formação inicial do “espírito da época”, quando ainda não se tinha um projeto de unificação nacional de uma Alemanha moderna, tal como a conhecemos hoje; mas, além das velhas escolas românticas e do já longevo Idealismo filosófico, sustentava-se por herança intelectual da tríade: Kant-Fichte-Hegel, (aparentemente controversos): o esforço de síntese filosófico-teológica nas obras de Schelling e Schleiermacher, ou da pura destruição ideológica nas obras de Marx e Nietzsche; os chamados já em meados do século XIX: “espíritos livres”; como no caso notável de Friedrich Nietzsche (1844-1904), considerada uma das mentes influenciadoras do século XX; o “pai do Niilismo” também dá seu contributo para a discussão em torno dos ideais nacionalistas e dos problemas de Estado.
Pois, é na “Singularidade Nietzscheana” que colhemos uma reflexão das mais espantosas para o que se estava preparado na época. Em sua obra Humano, Demasiado Humano (1878) comenta sobre um grande perigo envolto no nacionalismo e seu isolacionismo – fala do “homem europeu” e a destruição das nações; pois, enxergava claramente uma espécie de “nacionalismo artificial”, que buscava apenas sua configuração fechada em si mesma: a busca pela “língua-mãe”, pela “terramãe” e pela “raça-mãe”; é nesta crítica ao Estado-Nação que o problema do caso Judeu é analisado por Nietzsche como um “profeta” ou melhor uma “Pitonisa de Delfos ”:
Diga-se de passagem que o problema dos judeus existe apenas no interior dos Estados nacionais, na medida em que neles a sua energia e superior inteligência, o seu capital de espírito e de vontade, acumulado de geração em geração em prolongada escola de sofrimento, devem preponderar numa escala que desperta inveja e ódio, de modo que em quase todas as nações de hoje — e tanto mais quanto mais nacionalista é a pose que adotam — aumenta a grosseria literária de conduzir os judeus ao matadouro, como bodes expiatórios de todos os males públicos e particulares. Quando a questão não for mais conservar as nações, mas criar uma raça européia mista que seja a mais vigorosa possível, o judeu será um ingrediente tão útil e desejável quanto qualquer outro vestígio nacional. (NIETZSCHE, 2005, p. 233).
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| Detalhe do Pavilhão Nazista |
Assim, é desenvolvido sobre esta perspicácia toda uma dedução do que se dará na Alemanha no findar do século XIX e nos movimentos antissemitas no início do século XX, em destaque o Nazismo (Nacional-Socialismo), o que nos levará ao extremo desse processo ultrarromântico idealista germânico, do qual tratamos até aqui.
Ora, mesmo com a crescente identificação do judeu para com a nação alemã; e aqui damos o exemplo autobiográfico mais emblemático sobre esse fenômeno, na obra: Mein Weg als Deutscher und Jude – “Minha Vida como Alemão e Judeu”, de Jakob Wassermann (1873-1934); os alemães continuavam intolerantes tanto quanto antes da Unificação Alemã, como apresenta Mirian Bergel Oelsner: "Em relação aos judeus, a sociedade alemã os tratava como um povo separado, mesmo após a Unificação de 1871. Consta que os alemães, os protestantes em especial, tinham dificuldade em aceitar o pluralismo, e não conseguiam aceitar a ideia de que os judeus não tinham a intenção de se converter ao cristianismo". (OELSNER, 2017, p. 62).
É notório perceber que o nacionalismo alemão tem suas raízes em um antissemitismo também, problemático, que se arrastou ao longo de séculos de organização, unificação e burocratização da sociedade alemã; sementes de escritos e ideias encontradas nas nuances da mentalidade identitária que deu origem ao exacerbado nacionalismo alemão do século XX, de onde suas raízes se estendem deste a mente particular de um poeta romântico até a “consciência coletiva” de uma nação inteira reunida como massa de manobra pela concretização de uma idealização de “Paraíso na Terra”.
Referências:
- LUBAC, Henri de. La Posteridad Espiritual de Joaquin de Fiore: de Joaquín à Schelling. vol. 1. - Madrid: Ediciones Encuentro, 1988.
- MARÍAS, Julián. Fichte. In: Historia de la Filosofía. ed. 32. - Madrid: Hunab Ku Proiecto Baktun, 1980.
- MCGUIRE, Leslie. Napoleão: os grandes líderes. - São Paulo: Editora Nova Cultural, 1987.
- NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Humano, Demasiado Humano: um livro para espíritos livres. - São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
- OELSNER, Miriam Bettina Paulina Bergel. A gênese do nacional-socialismo na Alemanha do século XIX e a autodefesa judaica. Tese (doutorado) – Programa de Pós-Graduação em História Social. - São Paulo: Universidade de São Paulo, 2017.
- PAULA, João Antônio de. A idéia de nação no século XIX e o marxismo. Estudos Avançados.
v.22, n.62, p.219-235, 2008



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