A IGREJA CATÓLICA PERANTE O ADVENTO DO NAZISMO: Totalitarismo, Neopaganismo e Martírio (1933-1945).

Beato Clemens August Kardinal Graf von Galen (1878-1946)

 
O presente artigo foi dividido em três partes com o objetivo de abarcar a ampla temática com diferentes prismas de visão e análise. Primeiramente será apresentado o contexto geral, os sintomas e o surgimento do Nazismo na Alemanha e quais os primeiros posicionamentos da Igreja Católica para o novo regime que se construía na Alemanha na primeira metade do século XX.
A segunda parte busca apresentar a experiência sensível de clérigos alemães, do próprio Papa Pio XII e da experiência do mártir São Maximiliano Maria Kolbe no campo de concentração e extermínio, todos articulados contra o "Neopaganismo alemão". 
A última parte é destinada à memória cristã do nazismo, explicitando as difamações e os preconceitos gerados pelo esquecimento da temática que podem gerar ignorância por parte de alguns posicionamentos, destacando quais as perspectivas da temática para o futuro.
Sendo assim, o objetivo é levantar a discussão através de um assunto complexo, evidenciando a riqueza e importância dos acontecimentos para a História da Igreja e para o próprio entendimento do século XX, mostrando os perigos da ideologia nazista e o combate travado pela Igreja Católica contra a heresia do nazismo.

I. "Com Ardente Preocupação...": A Concordata da Igreja com o Reich alemão e sua violação

Em março de 1933 Hitler sobe ao poder da Alemanha, o Reichstag é ocupado pelo Partido Nazista, e a ideologia do antissemitismo e do culto à Nação e à Raça Ariana são estipulados como lei marcial sobre todo território (Leis de Nuremberg), estava se instituindo na Alemanha o novo regime totalitário do Nazismo, e um dos capítulos mais cruentos e trágicos da História do Ocidente; a política e ideologia nazista se baseava em vários aspectos do Pangermanismo (Von List) do revanchismo pós-Primeira Guerra Mundial, nas ideias do Darwinismo Social (Galton, Fischer e Chamberlain) do Antissemitismo teológico1 (Von Liebenfels) e de uma política de um poder totalitário com poucos precedentes na História (CHEVITARESE, 2017, p. 189- 193).
No entanto o que nos interessa explorar são os aspectos mais caros para Igreja Católica alemã, que consiste na política extensiva de assimilação dos cultos cristãos para com o simbolismo nazista, uma espécie de Neopaganismo como frisou Pio XI em sua célebre encíclica Mit Brennender Sorge de 1937; sendo que os nazistas não instauraram uma mentalidade de autêntica natureza política, não seria bem uma ideologia de massa simplesmente como no Socialismo, mas uma ideologia de uma Alemanha predestinada a Glória, de fundamentos nacionalistas tão bem arraigados na "alma do povo" pela força de uma consciência coletiva unida a ideia de Nação e Raça comum e de uma espécie de Simbiose Cristã-Neopagã generalizada no culto e nas noções da terminologia sagrada - como a Cruz e a Suástica e a concepção do Jesus Ariano, destruidor da Velha Aliança Judaica para a Nova Aliança Ariana (Idem, 2017, p. 194- 199).

Até mesmo no clero católico, caracterizado por ser o mais oposicionista ao regime, muitos se aliaram a Hitler, dentre os quais como o polêmico bispo Alois Hudal, reitor do Colégio Pangermânico da Santa Maria dell' Anima, o principal centro de treinamento de padres alemães, considerado um dos mais próximos de Hitler (THOMAS, 2013, p. 136-137).
O processo de reconhecimento do Vaticano para com o surgimento do novo regime alemão foi lento, como nos aponta Eric Voegelin, Historiador Teuto-americano, essa lentidão e a primeira iniciativa de se elaborar uma Concordata com o Reich levou para a Igreja consequências de ordem moral e política, sendo que por um tempo a Igreja se compromete a cooperar em uma relação estritamente de Estado para Estado 2, mantendo-se em uma relação jurídica e não havendo pronunciamentos explícitos de condenação ao regime; apenas casos isolados como os sermões do Cardeal Faulhaber em 1933 e 1934 onde se punha em dúvidas muitas insinuações nazistas que começavam a expor suas idéias mais extravagantes naquele primeiro momento; Voegelin adverte quanto essas negociações pouco confiáveis pelo curso dos acontecimentos após a assinatura da Concordata em 1933:
 
Porém, esse consentimento súbito e a vontade de cooperar estavam intimidade ligados às negociações para a Concordata. Esse comportamento, no entanto, experimentou seu primeiro revés imediatamente depois da conclusão da Concordata, quando começou a luta sistemática do nacional-socialismo contra as organizações católicas, não como uma quebra, de fato, da Concordata, mas através da exploração de dispositivos específicos que obviamente não tinham sido lidos corretamente pelos juristas do episcopado antes de sua conclusão. Pois foi estabelecido na Concordata que a posição da Igreja seria protegida de todas as maneiras, mas sempre com a condição de estar " de acordo com a lei". E então foram aprovadas leis que simplesmente aboliram tudo o que se esperava fosse garantido. Assim, houve um período mais longo para procurar compensações e para resistências, em casos particulares (VOEGELIN, 2007, p. 246).

Deste modo o curso dos acontecimentos tomaram rumos mais violentos, notícias vindas dos episcopados alemães começaram a preocupar o Papa, e a Concordata já era tida por ineficaz e Hitler havia violado sua integridade escrachadamente, foi daí que em 1937 Pio XI escreveu juntamente com o Cardeal Eugênio Pacelli (futuro Pio XII) a Mit Brennender Sorge - “Com Ardente Preocupação”, a única encíclica papal escrita em alemão, e cheia de condenações explícitas e implícitas ao Nazismo e ao Clero apóstata; no documento Pio XI teve uma avaliação rigorosa dos últimos acontecimentos, sobre a violação da Concordata pelo Reich, e de uma cada vez crescente perseguição e expropriação da Igreja alemã, menciona na carta se tratar de “ um plano predeterminado de ataque contra a Igreja” (PIO XI, 1937. p. 2.) e mais a frente recomenda a todo Clero alemão, aos episcopados primazes o extremo cuidado em natureza doutrinal e política, e condena o Nazismo quanto sua “confusão panteísta”; “culto idolátrico”; o culto a raça única e nação única; declara ser o antigo testamento tão digno quanto o novo, critica os “mitos da raça e sangue”, e do pretenso messianismo hitleriano; da atitude do Reich com muitos bispos pela criação de uma Igreja Nacional Alemã; e as adulterações feitas sobre noções sagradas e do sacrilégio neopagão (PIO XI, 1937, p. 1-7).
 
Após esta série de ataques ao regime Nazista, a Igreja inicia um posicionamento menos conciliatório, a última tentativa fracassada de diálogo fora com o Tratado de Munique em 1938 pelo Episcopado Alemão, mas o regime continuou sua política agressiva para com o clero oposicionista, o que levou aos massacres e saques de conventos e igrejas, mais tarde tido por mártires da fé pela Igreja; como resistência ao início da Segunda Grande Guerra e a invasão da Polônia em 1939 e consequentemente o projeto genocida do Reich, nomes como o bispo de Berlim Konrad von Preysing, e o de Münster, Clemens August von Galen, ambos declamaram seus sermões condenando expressamente o regime, baseados na Encíclica de 1937 (VOEGELIN, 2007, p. 244).

Com a morte de Pio XI em 1939 sucede-o Pio XII, que como cardeal já demonstrara sua postura antinazista, com as mensagens de alerta ao clero alemão e o início de sua campanha secreta de obtenção de vistos para os “não arianos” se refugiarem da perseguição iniciada com o trágico episódio do Pogrom da KristallNacht “noite dos cristais” de 1938 (THOMAS, 2013, p. 33) eleito Papa Pio XII em sua posse escolheu como tema a encíclica de 1937, deixando clara sua posição diante dos adventos patentes, criticando sumariamente “a perversão idolátrica” e os mitos da raça e do povo alemão, e sendo assim, retomará essas condenações em sua encíclica Summi Pontificatus no mesmo ano de 1939 (Idem, 2013, p. 48).

Nas primeiras semanas de seu pontificado Pio XII manteve-se preocupado com a situação dos judeus e dos católicos no Terceiro Reich, e convocando os cardeais alemães para lhes dizer que o Führer havia: “Abandonado e trocado a Cruz de Cristo pela Suástica” (THOMAS, 2013, p. 65) como represália às atitudes de oposição, o Reich intensifica suas atividades de confisco e fechamento de centros católicos; Goebbels (ministro da propaganda) declarou ser Pio XII “o Amante dos Judeus” (THOMAS, 2013, p. 108). E nos anos de 1942 e 1943, o Papa utiliza-se da Rádio Vaticana para expor seus sermões e críticas a ideologia nazista, com expressões incisivas como: “Qualquer ser humano que fizer distinção entre os judeus e outros seres humanos é infiel a Deus” e “não há nem gentios nem Judeus” (THOMAS, 2013, p. 140-141).
  
 
São Maximiliano Maria Kolbe, OFM Conv. (1894-1941)


2. Perseguição e Reação: atuação da resistência Católica alemã e polonesa

Apresentado o contexto e discutindo os sintomas do surgimento do Nazismo na Alemanha e os primeiros posicionamentos da Igreja Católica no contato com o Estado Alemão, vale destacar nesse momento do texto, a importância da resistência Católica alemã e polonesa através da experiência real dos santos mártires cristãos, das ações do Papa Pio XII e das críticas realizadas por clérigos alemães.
Inicialmente cabe destacar a ação dos clérigos alemães, dentre eles a forte atuação do bispo Clemens August von Galen, mais conhecido como "O Leão de Münster", atuando como bispo por um tempo similar ao governo de Adolf Hitler. Von Galen nasceu em 1878 no castelo de Dinklage, antes de ser consagrado bispo por Pio XI, e passou vinte e três anos de sua vida como sacerdote de uma paróquia em Berlim, foi nomeado bispo em 1933 por Pio XI no mesmo ano da Concordata do Reich assinada com a Santa Sé. "O Leão de Münster" é conhecido por realizar críticas contundentes a ideologia neopagã nazista, evidenciando publicamente as violências e os perigos da barbárie do totalitarismo do Reich alemão (FALASCA, 2004).

A ação do bispo de Münster contra o autoritarismo pode ser observada na sua primeira carta diocesana (1934), condenando a Weltanschauung e demonstrando o caráter religioso da ideologia nazista, destaca o próprio Von Galen:

Uma nova e nefasta doutrina totalitária que põe a raça acima da moralidade, põe o sangue acima da lei, [...] repudia a revelação, visa a destruir os fundamentos do cristianismo [...]. É um engano religioso. Às vezes esse novo paganismo se esconde até mesmo sob nomes cristãos [...]. Esse ataque anticristão que estamos experimentando em nossos dias supera, enquanto violência destruidora, a todos os outros de que temos conhecimento desde os tempos mais distantes (GALEN apud FALASCA, 2004, p.2).

A ideologia alemã trabalha como um verdadeiro veneno na mente da população, a força dos sermões de Von Galen chegam aos ouvidos do chefe da Gestapo, Hermann Göring, que exige a retirada do clero do ensino nas escolas alemãs, a tentativa dos agentes do Estado alemão era tentar jogar a população contra o bispo. Porém, o povo da Vestfália era de maioria católica e aprova a coragem do bispo alemão, outros clérigos também tomam destaque na resistência ao domínio nazista na Alemanha, os sermões do cardeal Michael von Faulhaber já em 1933 também ganharam influência frente a ascensão de Hitler 3.

A Encíclica pontifícia Mit Brennender Sorge de Pio XI também foi outra forte crítica feita pelo Papa ao Nazismo, as autoridades nazistas acreditavam ser a mais forte condenação que o Vaticano fez a um regime nacional, sendo considerada como um ato de alta traição contra o Estado. Von Galen imprimiu 120 mil cópias desta encíclica e distribui para a população, mas foram os sermões que proporcionaram seu sucesso na resistência ao nazismo, principalmente os sermões de 1941. O primeiro sermão foi realizado depois da ocupação das casas dos jesuítas por soldados alemães, além da deportação de religiosos e ocupação de conventos de irmãs de clausura por agentes da Gestapo, os efeitos do primeiro sermão varreram toda a região contra os atos infames do Estado Nazista, já no segundo sermão o bispo Von Galen destaca a afronesia (loucura) da ideologia nazista imposta pelo Estado, destacando o seu profundo ódio ao neopaganismo. Porém, foi o terceiro sermão que o Ministério da Propaganda considerou como o ataque mais forte contra o nazismo dentro de toda sua história, o bispo realiza um verdadeiro ataque contra o extermínio dos deficientes, dos velhos, dos doentes mentais e das crianças paralíticas, como destaca o próprio bispo:

Hoje são assassinados, barbaramente assassinados inocentes indefesos; pessoas de outras raças e de proveniências diferentes também são suprimidas [...] Estamos diante de uma loucura homicida sem igual [...] Com gente como essa, com esses assassinos que pisam orgulhosos sobre nossas vidas, eu não posso mais ter comunhão de povo [...] O Deus deles é o ventre (GALEN, 1941 apud FALASCA, 2004).
 
Os sermões tiveram tanto impacto que foram impressos e os próprios combatentes no front de combate chegaram a receber a mensagem do "Leão de Münster". A Gestapo prendeu várias pessoas (muitos judeus, inclusive) pela difusão dos Sermões e o próprio chefe da SS tinha planos para realizar um “acerto de contas” contra o bispo, muito se pensou sobre quais atitudes o Estado Nazista teria para as fortes críticas de Von Galen, porém a deportação do bispo ou sua prisão em um campo de concentração poderia afirmar a veracidade de suas críticas e o objetivo não era de transformá-lo em um mártir (Idem, 2004).

O bispo de Berlim Konrad von Preysing também foi outro grande religioso, era um homem de confiança de Pio XII e atuava no episcopado alemão como aquele da posição mais firme contra o Nazismo, Von Preysing facilitava a comunicação entre o bispo Münster e o Papa Pio XII. O próprio Papa considerava a atitude de Von Galen como uma verdadeira ação heroica e a rádio do Vaticano chegou a considerá-lo como príncipe da Igreja na véspera do Natal em 1945. O Arcebispo de Colônia Joseph Frings foi outro prelado alemão que se destacou na luta contra o terror nazista, atuando juntamente ao bispo de Berlim Konrad von Preysing.
 
O próprio Papa Pio XII trabalhou e muito contra o neopaganismo do Estado alemão, apoiando com vigor a ação dos clérigos alemães contra o nazismo, sua ação era planejada, pois um confronto direto contra Hitler poderia colocar toda a população católica alemã em risco, sendo assim, o método de ação contra o nazismo deveria acontecer de forma mais planejada.

Assim, o Vaticano também funcionou como um abrigo para muitos refugiados judeus alemães, uma verdadeira rede que articulava parte do clero alemão que facilitava a entrega de passaportes para judeus, se refugiando na sede da Santa Igreja Católica (THOMAS, 2013).
O Papa Pio clamava frequentemente por ajuda aos que eram caçados por causa da sua raça sendo condenados a morrer de maneiras bárbaras, transformou a rádio do Vaticano como meio para atacar as ações da ideologia nazista, destaca o próprio Papa, como já citado: “qualquer ser humano que fizer distinção entre os judeus e outros seres humanos é infiel a Deus” (PAPA PIO XII, 1943 apud Idem, 2013), e continua sua ofensiva contra Hitler: “Aquele que conduz o destino de nações não deveria esquecer que, apesar de ostentar a espada, não é senhor sobre a vida e a morte” (PAPA PIO XII, 1943 apud Idem, 2013). Dessa maneira, entendemos a postura do Papa da Santa Igreja contra as heresias cometidas por um Estado que se julga superior ao próprio Deus.

Trabalhamos até aqui a forte crítica exemplificada pelo confronto travado pelos clérigos alemães contra o Nazismo, bem como a rede de articulações e estratégias construídas pelo Santo Papa Pio XII; mas, ainda cabe destacar o controle do Reich alemão na Polônia e o caso marcante de São Maximiliano Maria Kolbe: o santo polonês foi padre na Polônia e dirigia a formação de franciscanos, foi preso e enviado ao campo de concentração de Auschwitz em 1941.

Nesse momento, Maximiliano Maria Kolbe observa o horror da guerra, sua experiência no campo de concentração permitiu visualizar a tragédia promovida pelo Nazismo. O santo é lembrado pela sua entrega de amor, oferecendo a sua vida como sacrifício, em um determinado momento 10 prisioneiros foram sorteados e condenados a morrer de fome em uma cela escura, dentre os condenados estava Franciszek Gajowniczek que possuía uma família com vários filhos, sabendo dessa escolha o santo padre Maximiliano Maria Kolbe se oferece no lugar de Franciszek, uma verdadeira atitude de amor, sobreviveu ao longo período principalmente pela prática frequente do jejum, porém foi morto através da aplicação de injeções letais (LORIT, 1975).

São Maximiliano Maria Kolbe se torna um mártir, sacrificando a própria vida em nome do amor, sendo cremado no próprio campo de concentração de Auschwitz: “Sente-se que a vida e a morte heróica do Padre, frei Maximiliano Kolbe estão produzindo como que um poderoso fermento espiritual no nosso mundo desorientado” (Publicação canadense “Marie” apud LORIT, 1975). 
 
Assim, observamos a resistência católica, seja pela ação do Papa, seja nas críticas dos clérigos alemães, seja na experiência de religiosos no campo de concentração, contra o neopaganismo da ideologia nazista que se expandia no por toda Europa.
 
 
Venerável Papa Pio XII (1876-1958)

 
3. Memória Cristã do Nazismo: Propaganda e Exame de Consciência

Com o término da Segunda Guerra Mundial e a Queda do Reich Alemão em 1945, os anos posteriores foram de um profundo exame de consciência na memória coletiva do povo alemão e de todos os outros participantes do conflito; quanto a Igreja Católica seu exame foi realmente amplo; primeiramente quanto o Holocausto foi disseminada uma propaganda difamatória contra a pessoa de Pio XII inicialmente deflagrada pelo serviço secreto soviético (KGB) por ordem de Nikita Kruschev e dirigido pelo chefe de espionagem romeno Ion Mihai Pacepa de 1960 a 1962; mais recentemente, no Ocidente, tal farsa circulou por conta do livro do jornalista John Cornwell 4 O Papa de Hitler (1999); por seu suposto “silêncio” ante os acontecimentos, o que trabalhos de pesquisas nos documentos e testemunhos recentes têm mostrado o contrário, como os do Pe. Blet, S. J. Pie XII et la Seconde Guerre Mondiale d’après les archives du Vatican de 1997, e do pesquisador Gordon Thomas Os Judeus do Papa de 2013 (THOMAS, 2013, p. 355).

A declaração do Papa Bento XVI em 2009 de elevar a Pio XII ao grau de “Venerável” concorrendo assim ao processo de canonização, levantou centenas de questionamentos em torno de sua figura, como o Papa do tempo de Nazismo e do Holocausto e de sua postura por vezes secreta demais e de pouca eficácia; no entanto a memória cristã se preserva em processo de examinação aberta, não somente quanto ao caso judaico com suas implicações teológicas e históricas, mas a da Igreja e a perseguição empreendida contra ela que só na Polônia chegou a três milhões, tantos quantos os judeus; uma avaliação menos exercida pela Igreja e de estranhável aceitação (BESANÇON, 2000, p. 123).

A Igreja manifestou sempre uma posição de reconhecimento dos erros de muitos de seus membros nazistas, e de que houve certa degradação doutrinal na Alemanha o que desencadeou em uma disciplina mais frouxa, um clero nacionalista, de um antissemitismo ensinado por vias teológicas sutis e de uma inépcia ante os acontecimentos que eram difíceis de compreender e incríveis por sua gravidade de se conceber (Idem, 2000, p.126).

No entanto a questão da memória é algo em contínuo processo histórico, o que traz transtornos e explicações de atitudes nada fáceis em tempos como aqueles; e nesta Memória vale registrar as posições judaicas de apoio a Igreja, de vítima para vítima; por exemplo da carta de 1943 de Chaim Weizmann, futuro primeiro presidente de Israel, que agradece a Santa Sé: “(...) pela ajuda poderosa, sempre que possível , para atenuar o destino de meus irmãos de fé” (THOMAS, 2013, p. 21).
E três anos antes Albert Einstein também já havia agradecido na Revista Time com as seguintes palavras: "Somente a Igreja se colocou no meio do caminho da campanha da supressão da verdade promovida por Hitler. Antes eu nunca tive nenhum interesse especial pela Igreja, mas agora sinto uma grande simpatia e admiração, porque ela sozinha teve a coragem e a persistência para defender a verdade intelectual e a liberdade moral". (Idem, 2013, p. 21).

Considerações finais

Portanto, durante todo o percurso desse ensaio foi destacado o contexto totalitário, a experiência do martírio e o combate contra o neopaganismo ideológico do Nazismo alemão. Observamos as condenações, os tratados realizados, bem como os posicionamentos da doutrina católica além dos ataques contra o paganismo declarado proposto pela ideologia estatal nazista. Relatamos os mecanismos da perseguição do Estado Alemão, através da Gestapo e da SS, além da reação da Igreja contra essa perseguição, através dos sermões dos clérigos alemães (principalmente do bispo de Münster, Von Galen), das estratégias do Santo Papa Pio XII em receber os judeus e proteger os católicos, além de suas duras críticas na rádio do Vaticano, e por último pela experiência de São Maximiliano Maria Kolbe como mártir e os horrores que aconteciam no campo de concentração no contexto de sua morte. É preciso levar em conta a complexidade da temática, a maioria da documentação sobre o assunto ainda permanece indisponível. Tratamos também de deixar claras as afirmações errôneas sobre o tema, bem como o seu esquecimento histórico e trabalhando as futuras perspectivas, principalmente com a liberação progressiva da documentação, sendo um campo bastante promissor à investigação histórica.
 
 
Referências:

BESANÇON, Alain. A Infelicidade do Século: sobre o comunismo, o nazismo e a unicidade
da Shoah. Tradução: Emir Sader. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. p. 122- 131.
CHEVITARESE, André Leonardo; JUSTI, Daniel Brasil. O Jesus Ariano: O Imaginário e as concepções historiográficas do Jesus Histórico na Alemanha Nazista. In: HORIZONTE, Belo Horizonte, v. 15, n. 45, jan./mar. 2017, p. 188-205.
FALASCA, Stefania. O Leão de Münster e Pio XII. In: 30Giorni . n. 08, 2004, p. 1-7.
LORIT, Sergio C. KOLBE: Herói e Mártir do campo de extermínio de Auschwitz. São Paulo: Editora Cidade Nova, 1975.
PAPA PIO XI, Mit Brennerder Sorge. 14 de Março de 1937. Libreria Editrice Vaticana.
THOMAS, Gordon. Os Judeus do Papa: o plano secreto do Vaticano para salvar os judeus das mãos dos nazistas. Traduzido por Marco Aurélio Schaümloeffel. São Paulo: Geração Editorial , 2013.
VOEGELIN, Eric. Descida ao Abismo Eclesiástico: A Igreja Católica. In: Hitler e os
Alemães
. Tradução: Elpídio Mário Dantas Fonseca. São Paulo: É Realizações, 2007. p. 243-278.
 
Notas:
 
 1 Alain Besançon define este tipo de antissemitismo como uma característica intrínseca na concepção nazista, um tipo de Gnosticismo Marcionista: uma antiga heresia cristã que atribui a Antiga Aliança judaica a maldição de um deus maligno, em contraposição com a Nova Aliança do novo Povo de Deus, no caso moderno, o Volk Alemão (BESANÇON, 2000, p. 95-96).
2 Lembrar-se que a Igreja desde o Tratado de Latrão em 1929 era oficialmente reconhecida pelo Estado Italiano um Estado Soberano e com sua relação para com a Itália era de reconhecimento de sua independência e unificação política, desta data se encerrava a velha questão do "cativeiro papal" iniciada por volta de 1869-1870 em pleno Concílio Vaticano I (THOMAS, 2013). 
3 “A oposição ao nazismo tornou-se clara e, em 1936, uma missiva conjunta do episcopado pediu ao Papa uma Carta Encíclica. Pio XI convocou a Roma os três cardeais alemães (Adolf Bertram, Michael von Faulhaber e Karl Joseph Schulte) e os dois bispos mais contrários ao regime, precisamente D. Clemens von Gallen e D. Konrad von Preysing. Com a ajuda determinante do Cardeal Pacelli e dos seus colaboradores alemães da máxima confiança (Mons. Ludwig Kaas e os Padres jesuítas Robert Leiber e Augustin Bea), chegou-se deste modo à Mit brennender Sorge (“Com profunda preocupação”), a Carta Encíclica que em 1937 condenava a ideologia racista e pagã, que já se tinha afirmado no Reich alemão (…).” (Discurso do Secretário de Estado Cardeal Tarcísio Bertone na Pontifícia Universidade Gregoriana por ocasião do 50º aniversário de morte de S. S. Papa Pio XII).
4 Tal obra foi desmascarada pelo trabalho do rabino David G. Dalin, The Myth of Hitler’s Pope, publicado em 2005.
 

* Co-autoria: Flávio Eugênio Mourão da Costa e Silva.
 
 

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