Notas póstumas de Vianna Moog ao Brasil
Era agosto de 1954, o Brasil a pouco passava por um de seus capítulos mais controversos e dramáticos: o suicídio de Getúlio Vargas, um marco da nova República e da unidade nacional definitiva, desde o projeto imperial do Segundo Reinado, sob os auspícios de Dom Pedro II; um pai que substituía a figura remota de outro pai do povo – o Pater identificado com a Pátria, a personificação da autoridade. Um mês antes, em julho de 54, o historiador e romancista Clodomir Vianna Moog (1906-1988) lançava sua maior obra historiográfica, Bandeirantes e Pioneiros: paralelo entre duas culturas; tamanho fora a abrangência dessa publicação, que o autor passou de um polemista americanista de ocasião ao esquecimento quase completo pelo establishment intelectual; tamanha sua abrangência, difícil de ser abarcada por uma mentalidade tacanha e decadente que se gerou dos anos 60 até nossos dias.
Em sua obra, Moog traça um diagnóstico das duas culturas, a americana e a brasileira; seguindo os passos de grandes teóricos brasileiros, a exemplo de José Honório Rodrigues, João Camilo de Oliveira Torres e Gilberto Freyre, Moog desenvolve não apenas um diagnóstico sociológico de ambas culturas, mas traça, quase profeticamente, as linhas gerais que regem as duas civilizações habitantes do mesmo continente geográfico.
Quanto ao ineditismo teórico dessa obra monumental, o próprio autor declara a síntese de sua investigação quando apresenta ao leitor os arquétipos de cada civilização e cultura, na imagem e no símbolo que rege cada história:
“Pela resistência do indivíduo a modificar suas categorias mentais em meio da vida e a substituir os símbolos que lhe são caros, ainda quando reconheça a conveniência da mudança, pode-se concluir que a tarefa de renovar imagens coletivamente idealizadas não deve ser das mais simples. Trata-se, com efeito, de tarefa dificílima, dada a persistência, através das idades, das imagens idealizadas fundamentais no processo de elaboração das culturas.
Impressionante esta persistência! Alteram-se os tempos, as culturas ampliam o seu raio de ação, esgalham-se em subculturas, continentes culturais fragmentam-se em arquipélagos, com ilhas de subcultura autónomas e diferenciadas — é o caso do Brasil; arquipélagos culturais fundem-se em continentes, ao mesmo tempo que ampliam sua órbita de influência — é o caso dos Estados-Unidos ; novas idéias substituem as antigas, novas técnicas e novos estilos de vida são adotados, mas as imagens primeiro idealizadas e primeiro magnificadas, como símbolos, no seio das culturas — como, por exemplo, a do bandeirante no Brasil e a do pioneiro nos Estados-Unidos — estas dir-se-iam inarredáveis e indestrutíveis”.1
Partindo de tais pressupostos traçados por Moog, se tratando da teoria histórica das linhas mestras que sustentam e mantêm as permanências substanciais de uma cultura, apesar das mudanças acidentais provocadas pelos acontecimentos históricos; propomos as seguintes questões: o que mudou e o que permaneceu de 1954 para cá? Quais as mudanças e continuidades estruturais e acidentais transformaram nossa cultura, modificando-a do tempo de Moog a nossos dias? O que diria e constataria o historiador ao se deparar com o processo que se desencadeou daqueles anos aos subsequentes? São perguntas para respostas praticamente imaginativas, que se baseiam nas possibilidades de uma “hermenêutica da história”, que a muito se perdeu.
Longe de se propor uma fiel e melhorada análise pós-Moog do Brasil (deixaremos de fora os Estados Unidos de tais notas póstumas, que o americano se ocupe da “América” de lá); propomos considerações e reflexões dos acontecimentos acelerados pelas mudanças que provocaram a evolução das linhas gerais; em suma, como nossa cultura reagiu ao diagnóstico póstumo de Moog, o que sua obra tem a nos dizer, a contragosto de seus críticos.
Se quisermos provocar uma nova perspectiva histórica ao estilo “Mooguiano” sobre os acontecimentos, teremos de 1950 a 1968: o eclodir da chamada “Guerra fria”, o avanço do capitalismo selvagem e do comunismo terrorista; A revolução sexual de 1968 que despertou o que havia de mais lascivo na cultura brasileira, provocada pela aparição inusitada da cultura do “Tropicalismo” no Brasil; as novas gerações perdiam cada vez mais suas conexões ancestrais. O suicídio de Vargas para o Brasil, equivaleu a um choque político e simbólico na história: o nascimento de uma nova era do paternalismo e do personalismo político atrelada ao Presidencialismo; e ainda, a construção da “capital comunista ideal” no coração do alto sertão brasileiro, um drástico rompimento com a velha capital imperial, em 1960 JK cometia um dos piores crimes contra o próprio Brasil: a inauguração de Brasília.
De 1968 a 1988, observamos a invasão dos tecnocratas e velhos positivistas no poder, o entreguismo mazombo, e a subversão cultural e silenciosa do Comunismo Gramscista; por esse tempo, destacaram-se os estrangeiros, mais uma vez um fator contrário ao provincianismo nacional, as figuras de gigantes intelectuais a exemplo de: Stefan Zweig, Vilém Flusser e Otto Maria Carpeaux, trouxeram diagnósticos de nossa cultura inéditos, olhares externos sobre nossa miséria e nosso potencial futuro inalcançável.
Durante os anos 60s a 80s, deparamo-nos com a herança do Antropofagismo Modernista de Oswald de Andrade até a culminação em seu sucessor, o excêntrico Zé Celso, do teatro paulista; em 1973, nossa cultura não era mais uma expressão de nós mesmos, passava desde então, a ser uma cultura de bruxaria intelectual e de estética alienígena, ganhamos um Oscar Niemeyer como modelo de estética, e perdíamos para o esquecimento, o legado de Aleijadinho, o Michelangelo de Ouro Preto.
Desajustamentos e imaturidades só se acentuaram, houve a transportação do fenômeno do Ianquismo no Brasil, uma americanização forçada pela cultura massificada dos EUA; de certa forma, Moog alertou tal aglutinação de uma cultura por outra em expansão, como de fato é o imperialismo estadunidense. O brasileiro despertou ainda mais o seu “bandeirantismo psicológico”, evidenciado pelos fenômenos do banditismo social generalizado, e o intenso êxodo rural da população nordestina para o sudeste e centro-oeste brasileiros; o exemplo mais extraordinário e evidente do “arquétipo Bandeirante” aflorado como predação e exploração da terra inóspita tropical, está no caso da nova corrida do Ouro das décadas de 70s, 80s e 90s, proporcionada pela enorme aglomeração na Serra Pelada: o maior garimpo a céu aberto do mundo.
No Brasil, podemos destacar duas frentes amplificadoras dos males da mentalidade brasileira, alterando sua cultura drasticamente; a primeira foi a revolução dos novos meios de comunicação, com a popularização da Televisão e da propaganda ideológica liberal e progressista, massificada; cultivando, assim, no brasileiro o espírito Ianque do consumismo e do trabalho sistêmico; no entanto, tais transformações só trouxeram mais desgraças a nossa condição de imaturidade moderna em relação ao Corporativismo e o apego ao trabalho orgânico.
Um ponto caro de nossa formação histórica contemporânea, se deve principalmente a Teledramaturgia (tendo por exemplo máximo a Rede Globo de Roberto Marinho), responsável pela programação coletiva geracional nacional, geração após geração, perpetuada ao longo de décadas; com isso, tivemos uma crescente manipulação social em praticamente toda cultura exibida ao público, agravando o sensualismo brasileiro ao extremo – velhas raízes do “mazombismo”2 foram ampliadas.
Além da corrupção moral propagada pela Teledramaturgia, o brasileiro foi tomado pelo apego cego aos slogans americanos, as imagens e símbolos do “Self-Made Man” e do “American Way of Life”; vícios americanos sem as virtudes do “Pioneirismo”, nosso “Bandeirismo” persiste, gerando antagonismos, acentuando nossas contradições internas.
O segundo amplificador de nossos males, foi a subversão cultural pelo Comunismo reinventado (dialeticamente) pelo Gramscismo e os asseclas da Escola de Frankfurt, os círculos intelectuais de debate público e acadêmicos foram apoderados pela hegemonia política e cultural da esquerda revolucionária.
O Brasil entrou num círculo vicioso de antagonismos e antinomias contra sua própria natureza, a perda de identidade patente, vislumbrada pela “elite intelectual” perplexa e confusa, nada mais fora o resultado de décadas de desfiguração cultural de nossas raízes genuínas; as virtudes de Aleijadinho, apontadas por Moog, foram esquecidas e escorraçadas como tudo o mais que constituía nosso panteão heroico nacional; uma amnésia crônica como uma praga minou nossa consciência pátria; qual a imagem de tudo isso? Basta rememorar o trágico incêndio do Museu Nacional, ocorrido em 2018: o lamento de um Brasil que não foi e que se perdeu em meio às ruínas do tempo.
Concluindo esta série de considerações e reflexões, vemos que no Brasil a “Catarse histórica” foi execrada e simulacros ideológicos só agravaram o quadro de nosso atraso civilizacional. O Brasil perdeu de vista a vida comunitária pelo trabalho orgânico, nosso Catolicismo continua performático e assistencialista; os vícios da lamentação doméstica pioraram, nosso passado, ao invés de servir de fonte de símbolos heróicos, agora é apropriado por ideologias negativas, que reduzem a História Nacional ao esquematismo mazombo: origem de nossos males incorrigíveis e antro de tiranias, corrupção, mesquinharias e descrédito; e de que só um “jeitinho” conserta tudo; nossas imaturidades continuam tão graves quanto no tempo de Moog, e ainda piores.
Um tempo que perdia um ícone como Vargas, “obrigado” a sair da História, para dar vasão ao legado ininterrupto dos Bandeirantes e mazombos viajantes do tempo na genealogia das gerações. Talvez, o autor que aqui vos fala não passa de um repetidor de vaticínios que Moog mesmo repetiria, e que padece do mesmo “mazombismo” de todos.
O que salva o Brasil? A fé, a fé no futuro que não chega; portanto, a esperança que não se esgota jamais.
Notas:
1. MOOG, Vianna. Bandeirantes e Pioneiros: paralelo entre duas culturas. 4ª ed. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1957.
2. Segundo o próprio Moog: “Tal como nos tempos coloniais, consiste essencialmente nisso: na ausência de orgulho, dignidade e satisfação em ser brasileiro. Para o mazombo, tudo no Brasil está perdido e errado, nada está certo. Vive zangado com o Brasil, porque o Brasil não é parecido com a França, com a Alemanha, com os Estados Unidos”. MOOG, Vianna, Correio da Manhã, 20/06/1948.
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