A psique do vencido ou manifesto aos que só enxergam o lado negativo em tudo

"Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigenesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco."
[Trecho de "Psicologia de um vencido", do poeta Augusto dos Anjos]

O poeta paraibano não carregava em si a síntese de toda uma época, mas é de se verificar que nos versos acima, fica transparente, para além da estilística peculiar, o sintoma de um estado de espírito, ou melhor, de um mal latente a psique da maioria dos "vencidos": quem só ver o lado negativo de tudo e de todos, não importa a circunstância e miudeza, não escapará ao olhar arguto do observador e investigador de erros e falhas na costura do tecido social.

Não me refiro, tão somente, a simples mania de rastrear o menor erro de português de uma frase, ou de identificar uma falha de pronúncia e dicção; me refiro a um comportamento retilíneo, uma personalidade fracassada que ainda não se manifestou em sua totalidade, imatura, persiste na mente do indivíduo, como um verme a roer o cérebro, mitigando e julgando tudo e a todos do alto da cátedra da ignorância, não importa o que façamos, uma mera curiosidade que demonstramos, ou uma novidade que alegra o espírito, apesar de supérfluo; não interessa, o "vencido" só enxergará o erro, a mácula, o mal mesmo, como um orifício do tamanho da ponta do alfinete em meio ao conjunto complexo do fenômeno que se apresenta.

Arthur Schopenhauer em sua autobiografia, "Arte de conhecer a si mesmo", trata do pessimismo como a melhor perspectiva da vida. Mas, como um lúcido filósofo, destaca em síntese o perigo da visão distorcida da realidade, a compulsão de fixar-se em um único ponto em particular:

"Continuamente devemos manter o olhar direcionado ao todo, pois, caso nos detenhamos no particular, com facilidade erraremos, e obteremos apenas uma visão falsa das coisas."
(Arte de conhecer a si mesmo, 1821-1860).

O filósofo trata do pessimismo como um realismo radical, guiado apenas pela vontade em meio ao mar tumultuoso das aparências e representações do mundo sensível. Tal como no mito platônico da Caverna, os negativos e vencidos psicológicos vivem centrados naquilo que querem ver, uma personalidade concentrada no juízo prévio e absoluto de tudo. No final das contas, o negativo ou vencido, é o indivíduo preso a sua própria miséria, o cárcere da ignorância.

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