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"Vós sois deuses": mito e civilização no Cristianismo

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O Triunfo do Cristianismo Sobre o Paganismo (1880), Gustave Doré. Respondit eis Jesus: Nonne scriptum est in lege vestra, Quia ego dixi: Dii estis? "Jesus lhes respondeu: Não está escrito em vossa Lei: Eu disse: Sois deuses?" (São João 10, 34) Ego dixi: Dii estis,  et filii Excelsi omnes. "Eu declarei: Vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo". (Salmo 82, 6) A maior empresa de investigação e elucidação que a ciência histórica pode executar em nossa idade, é a de evidenciar o poder e a abrangência da grande obra de purificação e conversão do mundo, feito pela Santa Igreja de Cristo, a Igreja Católica; tal fato peremptório vai além da ambição moderna do futurismo e previsão de um “milênio” inovador deste mundo decaído, o mundo (pagão) que deveria ser extirpado já o foi, e ainda está em vias de desaparecer, conforme o Evangelho avança pelos quatro cantos do mundo. O próprio Cristo declarou: “Vós sois deuses”, a saber, que a nomeação “deuses” vem d...

A psique do vencido ou manifesto aos que só enxergam o lado negativo em tudo

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"Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigenesis da infância, A influência má dos signos do zodíaco." [Trecho de "Psicologia de um vencido", do poeta Augusto dos Anjos] O poeta paraibano não carregava em si a síntese de toda uma época, mas é de se verificar que nos versos acima, fica transparente, para além da estilística peculiar, o sintoma de um estado de espírito, ou melhor, de um mal latente a psique da maioria dos "vencidos": quem só ver o lado negativo de tudo e de todos, não importa a circunstância e miudeza, não escapará ao olhar arguto do observador e investigador de erros e falhas na costura do tecido social. Não me refiro, tão somente, a simples mania de rastrear o menor erro de português de uma frase, ou de identificar uma falha de pronúncia e dicção; me refiro a um comportamento retilíneo, uma personalidade fracassada que ainda não se manifestou em sua totalidade, imatura, persiste n...

O sacerdote do diabo e o sacerdote de Cristo

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Na História da Igreja, descobrimos misérias e glórias de uma história marcada pelo sinal da natureza humana e pela ação da providência divina; em especial, quanto a instituição divina do sacerdócio, - sob as ordens sacramentais, um homem é elevado a transfigurar sua identidade - “ in persona Christi”:  ser instrumento da Graça; no entanto, essa mesma instituição pode gerar uma outra face terrível, quando este mesmo homem, uma vez sagrado, rejeita, repele e submete aos apetites da carne seu espírito. Na história da Igreja, na tão famigerada Modernidade, destacamos dois sacerdotes, que evidenciam facilmente tal contraste, latente na condição do sacerdócio. O primeiro é o Pe. Jean Meslier, nascido em Mazerny, a 15 de junho de 1664, falecido em Étrépigny, a 17 de junho de 1729; foi um sacerdote católico francês. Cura (pároco) de Étrépigny por quarenta anos, de 1689 a 1729.  Sua notoriedade se deve à autoria de um tratado filosófico promovendo o ateísmo, descobert...

Notas póstumas de Vianna Moog ao Brasil

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Era agosto de 1954, o Brasil a pouco passava por um de seus capítulos mais controversos e dramáticos: o suicídio de Getúlio Vargas, um marco da nova República e da unidade nacional definitiva, desde o projeto imperial do Segundo Reinado, sob os auspícios de Dom Pedro II; um pai que substituía a figura remota de outro pai do povo – o Pater identificado com a Pátria, a personificação da autoridade. Um mês antes, em julho de 54, o historiador e romancista Clodomir Vianna Moog (1906-1988) lançava sua maior obra historiográfica, Bandeirantes e Pioneiros: paralelo entre duas culturas; tamanho fora a abrangência dessa publicação, que o autor passou de um polemista americanista de ocasião ao esquecimento quase completo pelo establishment intelectual; tamanha sua abrangência, difícil de ser abarcada por uma mentalidade tacanha e decadente que se gerou dos anos 60 até nossos dias.   Em sua obra, Moog traça um diagnóstico das duas culturas, a americana e a brasileira; seguindo os ...

A IGREJA CATÓLICA PERANTE O ADVENTO DO NAZISMO: Totalitarismo, Neopaganismo e Martírio (1933-1945).

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Beato Clemens August Kardinal Graf von Galen (1878-1946)   O presente artigo foi dividido em três partes com o objetivo de abarcar a ampla temática com diferentes prismas de visão e análise. Primeiramente será apresentado o contexto geral, os sintomas e o surgimento do Nazismo na Alemanha e quais os primeiros posicionamentos da Igreja Católica para o novo regime que se construía na Alemanha na primeira metade do século XX. A segunda parte busca apresentar a experiência sensível de clérigos alemães, do próprio Papa Pio XII e da experiência do mártir São Maximiliano Maria Kolbe no campo de concentração e extermínio, todos articulados contra o "Neopaganismo alemão".  A última parte é destinada à memória cristã do nazismo, explicitando as difamações e os preconceitos gerados pelo esquecimento da temática que podem gerar ignorância por parte de alguns posicionamentos, destacando quais as perspectivas da temática para o futuro. Sendo assim, o objetivo é levantar a discu...

Excerto sobre o Tratado da Música de Santo Agostinho de Hipona.

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Santo Agostinho, Piero della Francesca. c. 1454 d.C. - 1469 d.C Antecessor de Descartes e de Malebranche, que cavaram um abismo entre o corpo e a alma, Agostinho, guiado pelo senso cristão, rejeita a possibilidade de o corpo modificar a alma. O corpo não produz, na alma, dor ou prazer. Nada disso: atenta às impressões que o corpo recebe do exterior ou das modificações sofridas em seus órgãos, a alma toma consciência dos movimentos corporais, e, associando-se ou opondo-se a eles, a eles se conformando ou resistindo, essa mesma alma sente dor ou prazer. A dor é uma função de sofrimento dos órgãos percebida pela alma, o prazer, uma operação agradável de que ela toma consciência. Essa teoria é tanto mais original quanto vemos que a alma é tida em geral como coisa puramente passiva no fenômeno da sensação: Agostinho vê nessa passividade um entre outros modos de atividade da alma, uma reação contra os impulsos vindos do exterior, e a alma segue livre para associar-se a eles ou não....

RAÍZES HISTÓRICO-FILOSÓFICAS DO NACIONALISMO ALEMÃO

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  Apotheosis of Kaiser Wilhelm by Ferdinand Keller, 1888   As heranças deixadas pelas mais diversas formas de texto literário que impregnaram a mentalidade da juventude alemã no final do século XVIII e início do XIX, encheu de esperança uma geração bem a moda do aclamado poeta romântico Friedrich Schiller, com seus versos suntuosos, dignos, até mesmo, de serem elevados a uma nona sinfonia de Beethoven como foi o caso de Ode to joy (Ode à Alegria). Mas, os ventos da esperança não tardaram para tomar contornos ainda mais idealistas.   Este é o caso do impacto profundíssimo na mentalidade da época, especialmente na juventude universitária alemã, levada a novas possibilidades de se posicionar no mundo; a proposta de um “novo homem” dada pela realização do “Esclarecimento” ( Aufklaüreung ) da filosofia até então produzida nas academias, desde a revolucionária Crítica da Razão Pura de Immanuel Kant, a percepção de realidade da sociedade alemã divulgada nos seus centros intelec...