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Mostrando postagens de julho, 2022

O Fim da Política na Era da Imagem no Poder

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  Vilem Flusser, Bielefeld, 1984. Ralph-Hinterkeuser   1. Política, linguagem e realidade.  Em seu ensaio sobre a origem e os fundamentos existenciais da linguagem, Rosenstock-Huessy definiu: "A linguagem é a constituição política de um grupo além do tempo e espaço de vida de um indivíduo, além do senso comum e do senso físico".  Rosenstock em sua definição sociocultural da linguagem nos concede a noção fundamental de que todo ato de comunicação humana é criativo e normativo; ou seja, em nossa cultura as expressões de linguagem tanto: oral, escrita ou imagética, tem por fim a orientação do homem em sociedade, para além de sua individualidade, tanto mental como corporal.   A política é a linguagem formal que se estabelece entre o governante e o governado, em suas variações históricas a política primeiro se estabeleceu na comunidade humana sobre a forma oral, de geração a geração; depois passou para a fase da forma escrita, quando as leis passaram a ser...

MNEME: A Destruição do Homem

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  Mnemósine ,  por Dante Gabriel Rossetti, 1875. I. MEMÓRIA-HOMEM  Umas das três faculdades da Alma Humana definida por Santo Agostinho é a Memória, palavra de origem grega, com fundo mitológico, derivada da deusa titânide: Mnemósine (em grego: Μνημοσύνη). A reflexão que proponho é a seguinte.  Já pensou que em nosso tempo está ocorrendo uma degeneração cultural e psicológica de tais "esferas" de nossa alma? O Intelecto (2ª faculdade) é corrompido por filosofias negativas, e A Vontade (3ª faculdade) é corrompida por ideologias negativas.  A Memória é a mais afetada, não por ser a mais atacada, mas por sua natureza mesma principial na constituição do cognoscente. O centro de nossa alma é orientada pela Memória, pois: da Vontade nossas inclinações passam pelo Intelecto que racionaliza os pensamentos, os quais são alimentados pela Memória que dá forma às imagens ( mundus imaginalis ), que por sua vez são convertidas em nossas ideias e pensamentos.  A...

Política e Teologia da História: Santo Agostinho segundo Eric Voegelin

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Mosaico de teto Civitas Dei, Catedral de Aachen, Renânia do Norte-Vestfália, Alemanha. 1. História Simbólica.  Em sua principal obra Santo Agostinho trata da concepção cosmológica da História, em sua esfera sagrada e profana; disso, temos em De Civitate Dei a divisão da obra em Pars I, a pars destruens de destruição apologética contra os pagãos; e a Pars II, a pars construens de argumentativa construtiva, narrando o início, o desenvolvimento e fim da  Civitas Dei (Cidade de Deus) e da Civitas terrena (Cidade dos homens); as duas partes são baseadas no simbolismo platônico do número/ideia.  Umas das problemáticas centrais que busca S. Agostinho responder, é a de: “onde nos situamos em relação a todo curso da história humana?” É desse ponto que ele parte para a formulação de sua interpretação das épocas da história; uma interpretação da história sagrada, é o que mais lhe interessa.  Primeiro ele partiu do recurso de uma periodização simbólica 1 , i...

RESENHA: Do Espírito das Leis, do Barão de Montesquieu: seu tempo, seus fundamentos e sua posteridade

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  Moisés quebra as tábuas da Lei. Ilustração de Gustave Doré. A partir da iniciativa de elaborar uma contextualização da vida de Montesquieu, buscamos delinear o cenário no qual viveu e as ideias que circulavam na França do antigo regime no século XVIII - um tempo herdeiro das ideias revolucionárias de pensadores como Francis Bacon (1561- 1626) e René Descartes (1596- 1650), que desenvolveram os modernos modelos de métodos científico e filosófico que se arrastaram por toda a era moderna até Kant; é neste tempo que floresce o pensamento moderno do “Progresso da História”, de um preposto Evolucionismo; e dos novos pensamentos, como o Ceticismo, os quais formularam variadas críticas ao pensamento Cristão Medieval; como a revolucionária ideia de "Religião Natural" algo que tomou os mais diversos círculos intelectuais da França, Inglaterra e Germânia (TRUC, 1979).  Neste tempo em que a Casa Real que dominava a França era os Bourbon, com os sucessivos reinados dos luíses, c...

O Chiaroscuro macabro da ficção: O Nome da Rosa de Jean-Jacques Annaud (1986)

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O filme de Jean-Jacques Annaud de 1986 se ambienta no período da intitulada Baixa Idade Média em 1327, tempo em que o centro do pensamento intelectual se concentrava nas abadias e mosteiros das ordens religiosas (Beneditina; Franciscana; Dominicana; Clunyacense e Cisterciense); o enredo é baseado no romance homônimo do renomado escritor italiano Umberto Eco, autor desse best-seller que chegou a desafiar grande parte de seu público, alegando que só quem desvendaria os enigmas de seus labirintos narrativos, seriam pouquíssimas pessoas: “uns quatro ou cinco medievalistas e talvez um ou dois cardeais” 1 .  A ordenação do enredo busca ser o mais fiel possível na adaptação cinematográfica do romance, Annaud organiza sua produção desde o figurino, cenário, seleção de atores, trilha sonora e adaptação de texto para galgar a mais perfeita e bela representação imagética das cenas capitulares da narrativa de suspense que perpassa toda a obra de Eco; observa-se que a estética da prod...

RESENHA: BESANÇON, Alain. A Infelicidade do Século: sobre o Comunismo, o Nazismo e a unicidade da Shoah. RJ: Bertrand Brasil, 2000. p. 35–80.

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A presente obra do historiador francês Alain Besançon (1932-), diretor de estudos da École des Hautes Études en Sciences Sociales – EHESS, possui a característica de revelar muito do pensamento político de tal pensador contemporâneo, formado no Institut d´Études Politiques de Paris – Collège Stanislas de Paris ; Besançon foi comunista nos tempos do Stalinismo, mas depois passou a adotar uma posição crítica à ideologia comunista e outras formas de totalitarismo, a exemplo de seus trabalhos como: A Infelicidade do Século ( Le Malheur du Siècle – 1998); As origens intelectuais do Leninismo ( Le origines intellectuelles du Léninisme – 1979) e A falsificação do bem: Soloviev e Orwell ( La falsification du bien Soloviev et Orwell – 1985). Besançon também é um acadêmico voltado por temáticas diversas, ligado a um pensamento conservador francês liberal ao estilo de Raymond Aron (1905 – 1983), por investigações de desenvolvimento da filosofia crítica das ideologias modernas e de as...

AS RODAS DA HISTÓRIA: tentativa de formulação do problema do sentido da História no século XXI

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Der Triumph Christi. Joseph Ritter Von Führich (1800 - 1876). Na geração anterior, diziam: - “Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado”; suponho que na geração seguinte dirão: - “Tudo na Imagem, nada contra a Imagem, nada fora da Imagem”.  No findar do século passado morria um velho judeu por um acidente automobilístico, ironicamente, o mesmo homem que formulou a ideia de que a História patina velozmente, ou melhor, corre em alta velocidade como um carro numa pista de gelo 1 ; esse mesmo judeu já havia feito suas profecias, não como seus consanguíneos da antiga Israel, não as fez por via pneumática, mas por via noética.  Ora, ele já antevia a escatológica hegemonia das imagens, ou projetos técnicos do universo das imagens técnicas, que tem seu lugar no: Mundus Imaginalis - mundo intermediário, que os magos e cabalistas medievais tão arcaicamente buscavam manipular; precisaria de mais cinco séculos para que seus descendentes criassem a fotografia, e mai...